Comecei a ler “A Ausência Que Seremos” com uma série de preconceitos que foram se desmontando a medida que a leitura avançava. Sabia que era uma história de pai e filho e comecei a ler o livro com essa informação em mente. O recurso narrativo que Héctor Abad utiliza é o do relato e este contar dos seus sentimentos de menino que se aproxima do pai por estar em uma casa completamente abarrotada de meninas não gerou o efeito que eu esperava que fosse a intenção do autor. Mas ao longo do texto fica claro que Héctor precisava dar conta desse amor, mas não queria despertar identificação no leitor – é apenas parte importante da história. Também não ficaram pontas soltas entre pai e filho, esta não é uma obra de acerto de contas, como o autor deixa bem claro quando diz que poderia escrever um “Carta ao Pai” de Kafka apenas com situações e sentimentos contrários ao do tcheco.
Também sabia que Héctor Abad, o pai, era médico e sanitarista, militante das causas sociais e dos direitos humanos e que havia sido assassinado por sua militância. O livro seria um acerto de contas, a denúncia política então? De certa forma sim, mas nem tanto… Tive a oportunidade de visitar a pouco a exposição “Dores da Colômbia” no Museu Oscar Niemeier de Curitiba – PR com pinturas do artista Fernando Botero. As pinturas põem as figuras rotundas de cores fortes características do pintor em situações de violência absurda, denúncia da ação de grupos guerrilheiros políticos e paramilitares na Colombia. Saí da exposição pensando se as cores e a opulência dos personagens conseguiriam dar conta da denúncia ou acabariam por suavizar e esvaziar a intenção do artista. Uma pergunta que o livro ajudou a responder.
Pola Olaxairac quando “acusada” de ser de direita durante a FLIP rebateu: Isso é ridículo. Não sou de direita, porque é impossível ser latino-americano e ser de direita com tantos problemas e tantas coisas a resolver. Quem critica a esquerda, na verdade, critica uma ultraesquerda. O que salta aos olhos durante a leitura de “A Ausência Que Seremos” é justamente esta posição que Pola sustenta. Héctor Abad é definido como um Liberal com uma aguda sensibilidade e consciência social, alguém que abraçou um certo mesoísmo filosófico (a postura do justo meio, do antidogmatismo) mas que não deve ser confundida com o dito pragmatismo que infestou nossa política de modo a equivaler nas ações qualquer posição política que assuma o poder a ponto de torná-las indistinguíveis. Héctor, que sim, tinha pendores à esquerda, mas que desiludiu-se na primeira oportunidade em verificar a aplicação do comunismo na união soviética tinha também algumas posições típicas da direita, o que o tornava uma aberração política nessa terra de cores ideológicas tão carregadas tornando-o perseguido pela direita e pela esquerda, quando esta ou aquela estavam no poder. Podemos sugerir um remendo para a fala de Olaxairac: Na América Latina não há espaço para caminhos do meio – Ou somos a extrema direita conservadora e gananciosa ou a extrema esquerda revolucionária – iguais apenas na crueldade.
Sobram farpas bem mais agudas para a igreja e sua conivência para com o poder, sua capacidade efetivamente utilizada para a manipulação, resignação e a perpetuação da ignorância entre o povo. Sobram exemplos de situações e atitudes das mais maquiavélicas por parte dos altos membros do clero colombiano. Sobram também argumentos anti metafísicos embutidos na educação humanista que o autor recebeu do pai.
Mais do que tudo “A Ausência que Seremos” é um testemunho da estupidez da morte pela violência. A perpetuação da memória e o legado de Héctor Abad Gómez em contraste com seu fim trágico. Aí talvez mora uma das ressalvas que tenho a fazer sobre o livro – a tradução do primeiro verso do poema apócrifo de Borges que dá nome ao livro Ya somos El olvido que seremos. Já somos os esquecidos que um dia seremos. é a essência da proposta do livro. Ausência despertou alguns significados e leituras que foram completamente desmontados nos capítulos finais, não que a palavra esteja incorreta, mas a leitura equivocada é possível e esquecidos/esquecimento evitaria a confusão.
Título: A ausência que seremos
Título Original: El olvido que seremos
Autor: Héctor Abad
Tradutores: Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 320
Preço de catálogo: R$46,00
Ps: Agradecimentos a Rachel Lora Lambrecht pela ajuda com o espanhol do poema original



