Por Diego da Cruz

O papel do intelectual é ingerir o mundo e devolvê-lo ao próprio mundo com uma porção a mais de razão. Dissecar os seres, explicar os fenômenos, desmantelar os átomos, analisar as correntes, justificar os fatos, etc. Mas eu vejo, e é muito difícil não ver, o retorno da segregação racial, o inferno nas relações humanas, o pandemônio civil, a crescente da homossexualidade, o regramento da liberdade, o desrespeito do estado, a violência, a fome, a miséria espiritual em todas as regiões, etc. O que me leva a questionar o valor dos intelectuais dos tempos pré-modernos.

Do heliocentrismo ao egocentrismo, foi uma jornada complexa, de difícil exposição breve, mas caminhamos do sol como centro do universo – centro da nossa consciência – até aqui, onde o nosso próprio ânus é o centro do universo – e quem disso duvida que duvide com rigor, não apenas com um falso pudor moral católico-capitalista ou evangélico, ou seja lá o que for – e hoje, quando não acariciados por uma parcela representativa de pessoas, nos tornamos depressivos, infelizes, doentes, cancerígenos e coléricos: a solitude trás irremediavelmente a solidão; ninguém consegue se suportar, estar sozinho é o demônio da nossa educação, temos que ser os melhores, precisamos nos comparar – compra-se pra se comparar – e enquanto nos vemos fora dos eixos dos objetivos que nos foram incumbidos, nos vemos fora de órbita, nossos sonhos não são nossos sonhos, e somos perseguidos se não sonharmos o que querem que sonhemos, e tomamos como nossos esses sonhos coletivos, por medo de não ter com o que sonhar, ou sonhar algo paradoxal á essa maquina universal dos sonhos, cuja manutenção é feita pela polícia; e assim se dão nossos objetivos, nossa consciência, nossa busca, ingerimos os espasmos da máquina universal e somos educados a amar isso que ingerimos como se fosse exclusividade nossa, pessoal, como se fossemos personalidades.

O universo é um só e os cinco sentidos que temos para o perceber são comuns a todos – salvo algumas exceções – o que torna o nosso consciente coletivo, a nossa imaginação coletiva, dando razão as fábulas, lendas, par lendas e mitos; o que eu quero aqui, é representar que das muitas opções que tínhamos a seguir do heliocentrismo ao egocentrismo, seguimos cegos apenas o da razão, da ciência, do conforto físico em detrimento do conforto espiritual, o que nos trouxe ao centro desse pandemônio atual e me faz questionar o papel dos intelectuais pré-modernos.

Algumas pessoas pareceram possuir algum sentido além dos cinco que dão vazão à razão, e foram de encontro ao embalo da máquina universal, chamados de artistas, tem um histórico de marginalização, desvalorização e repressão. Somos impossibilitados de conceber muitas das formas de abstração e compreender outras formas de realidade, pois somos nós a máquina universal, oprimidos, oprimindo os que não se sentem oprimidos como nós, ridicularizando e excluindo.

O papel do artista é ingerir o mundo e devolvê-lo ao próprio mundo com uma porção a mais de sentimento, de abstração, de possibilidades e espírito, Ampliar as sensações pela manipulação do real e dessa forma se aproximar de algo alem do suporte dos nossos poucos sentidos, e a vala que cavaram pra separar nós de nós mesmos, se deu pela escolha da lógica em detrimento da arte na construção dessa máquina universal que nos transportou do heliocentrismo ao egocentrismo.

 

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