Muita gente fala e já falou de Piglia melhor que eu, traçando as conexões certas, mencionando Borges e Arlt e Sarlo. Por isso mantive esta resenha modesta e parcial, centrada no livro, sem olhar para os lados.

É muito comum da narrativa longa contemporânea assumir para si procedimentos vindos do relato policial. Raro é o livro que não transforma a curiosidade humana natural no centro do texto sob a forma de uma investigação. Nesse sentido, Alvo Noturno, de Ricardo Piglia é rigoroso, praticamente hard-boiled na sua indecisão entre crime passional e interesses político-financeiros. O livro depende fortemente de procedimentos do romance policial, está lá a figura do detetive, a figura do jornalista jovem e impetuoso seduzido pela femme fatale, um mal encarado, dívidas, conflitos familiares e um estrangeiro charmoso. Se pensarmos que é essencial para o livro policial a circularidade, os episódios se encadeando a partir do texto, sem muita interferência do acaso, podemos concluir que a parte mais interessante do livro, contudo, é a não abrangida por esse esquema, a que se permite intromissões. Seja de um colorido local, seja de breves, meio disfarçadas, passagens alusivas de teoria literária nas falas das personagens, seja no lastro histórico repercutindo na vida da aldeia, o legal do livro é quando se descola das padrões do romance policial, deixando claro que esse é só um substrato. Quanto ao lastro histórico, um dos temas mais caros ao Piglia, o livro soube explorar uma certa pulsão argentina¹ de culpar a história mundial por um colapso interno, tanto no episódio da falência iminente dos irmãos Belladonna, quanto no uso do elemento estrangeiro como motivador da trama. Essa releitura histórica é um tema central da narrativa argentina e já preocupava o Piglia em Respiracão Artificial (1988), um livro também protagonizado por Emilio Renzi e que abre com a frase famosa ambígua: ¿hay una história? Vale apontar também a ambiguidade paradoxal do título, mantida na tradução de Heloisa Jahn: o livro em espanhol se chama Blanco Nocturno, são inúmeras as menções do narrador à brancura desestabilizadora de alguns objetos, de lanternas a um farol a pedras.

Em última análise, abordar o livro pelo viés policialesco é empobrecedor, é seguir o que diz a contra-capa. O maior atrativo pra mim foi o retrato do interior de uma Argentina em que a figura de Perón ainda pairava sobre as cabeças, um retrato que alinha o livro aos primeiros livros de um outro narrador que se consolidou ao mesmo tempo que o Ricardo Piglia: Juan José Saer. Podem ser atrativas para outros leitores as reflexões de Renzi sobre o ato de escrever, as descrições dos malabarismos bancários que levam mais de um à bancarrota, as descrições das relações sociais e das hierarquias na cidadezinha. lml.

 

Título: Alvo noturno
Título original: Blanco nocturno
Autor: Ricardo Piglia
Tradutora: Heloisa Jahn
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 256
Preço de catálogo: R$45,00

 


¹por exemplo, Segundos Afuera (Martín Kohan. 2005) e Los Pichiciegos (Rodolfo Fogwill. 1983).

Related Posts with Thumbnails