Antes de começar a resenha, dê um play no áudio ai em cima.
All set?
Vamos nessa.
Este é o som do R. Crumb & His Cheap Suit Serenaders, o grupo liderado pelo “pai dos quadrinhos” underground, Robert Crumb. A banda gravou apenas três discos na década de 70 e fez quase nenhum sucesso. Em plena era de ouro do rock, desafiando os solos virtuosos de guitarras, os amplificadores barulhentos e as baterias apocalípticas, o Cheap Suit levava ao palco banjo, arcodeão, violino, violoncelo, serrote musical, e outros instrumentos do gênero para tocar o string band, estilo popular nos anos 20.
Sucesso não era bem o que os caras queriam. “Nós não usamos glitter! Nem penduricalhos, pulseiras ou colares brilhantes nesta banda de homens!! Apenas tocamos a melhor música que podemos!!” dizia Crumb. Mas, se o som não chamava atenção das massas, as capas de discos, cartazes e anúncios da banda, assinados por Crumb, não passavam em branco. Desde os anos 60, Crumb se destacava ilustrando discos de artistas de blues, bluegrass, country, jazz e rock.
A música, principalmente a old-time music – o blues do delta do Mississipi, o jazz e as big bands, a música negra norte-americana antiga e seus músicos buliçosos -, é uma influência importante na obra de Crumb, que tem um vasto repertório de quadrinhos especificamente sobre o assunto. São esses trabalhos que a compõe a antologia Blues, preparada especialmente para o Brasil pela Conrad.
Logo na primeira folhada, você encontra Keep on Truckin’, quadrinho de uma página baseado na música de Blind Boy Fuller, muito famoso nos anos 60, associado – de forma errada, segundo Crumb – com o otimismo da era hippie.
Blues é mais amplo que o nome sugere. No livro, descobrimos várias faces diferentes da obra de Crumb. Na primeira grande história, Patton, encontramos o Crumb biógrafo, interessado nos músicos esquecidos no período anterior à era do disco. A seguir surge um Crumb estritamente artista no insano Quadrinhos Be Bop Cubistas. Há também o satirista, o ilustrador, mas sobre todos domina o Crumb historiador. Suas histórias têm um pezinho no passado, sempre em busca da gênese da música, tentando recuperar não só a memória, mas também as sensações de tempos perdidos, ofício que resulta em trabalhos sublimes como Uma breve história da América, série de doze quadros que sintetiza uns 200 anos da história dos EUA sobre o mesmo pedaço de chão.
Sobre a música atual, e música atual é toda aquela amplificada, Crumb é um rabugento inveterado, dedica pelo menos duas de suas histórias para repudiar o volume, as danças e as letras das músicas modernas, e – indignado – nos pergunta: “onde foi parar toda aquela magnífica música dos nossos avós?”
“Porque a música é a alma da cultura humana…”
A este ponto, a música My Girls Pussy, que você colocou pra rodar no começo da leitura, já deve ter acabado (tu pode ouvir mais algumas aqui, ó). Busquei descrever um pouco das histórias e da riqueza de assuntos contidos no livro, mas seria um crime não elogiar o trabalho artístico de Crumb. Seus traços são hiperbólicos, caricatos, eróticos, alucinados, inconfundíveis. Para quem se interessa pela obra do quadrinista, ou quer conhecer esse lado historiador musical do artista, Blues é o livro.
Acima, o trailer do documentário Crumb, de 1994, produzido por David Lynch e dirigido por Terry Zwigoff, um dos membros do Cheap Suit Serenaders, a banda do Robert.
Título: Blues
Autor: Robert Crumb
Tradução: Daniel Galera
Editora: Conrad
Número de páginas: 106
Preço de catálogo: R$ 35,00

2 comments
Juliana Piesco says:
dez 3, 2011
Post impecável e completo =)
E me ajudaram a escolher o presente de Natal do meu namorado: ele adora livros sobre os “tempos gloriosos” da música pré-disco, e estava querendo ingressar no maravilhoso mundo dos quadrinhos. Por onde começar se não por Crumb?
João Paulo Oliveira says:
dez 5, 2011
;D
Genial. Acho que nenhuma resenha tinha virado presente de Natal até agora. Nessas condições, Blues cai como uma luva, Juliana. Espero que ele goste do livro.