Um livro do Chico nem sempre se parece com uma música do Chico. Existem elementos em comum, todavia, como a fixação por personagens femininas. Em Budapeste são duas: Vanda e Kriska. Vanda é a mulher brasileira, âncora de telejornal e mãe de um menino obeso. Kriska é a amante húngara, branca, branca, branca, bela, bela, bela, mãe também, seu filho apenas um elemento para complementar o paralelismo perfeitamente antagônico entre dois mundos tão diferentes quanto remotos.
Como a capa da primeira edição sugere, o livro é um jogo de espelhos. A história se desenvolve sempre duplicada, um-prá-lá-um-prá-cá entre Rio de Janeiro e Budapeste. José Costa (Zsoze Kósta) é o prisma pelo qual o leitor descobre uma série de reflexos: trabalha em Copacabana, mas acaba se encantando pelo Danúbio; em português escreve prosa, em húngaro se descobre poeta; para o alemão Kaspar Krabble inventa a biografia O Ginógrafo, para o velho poeta Kocsis Ferenc, o aclamado Tercetos Secretos. A lista vai longe, um leitor atinado pode até sublinhar algumas dezenas de paralelos. A única perpendicularidade é obsessão pelo anonimato, o personagem narrador do livro é ghostwriter.
Lá no fundo, Budapeste é sobre a busca da identidade. O escritor que, escondido em uma saleta, ganha os louros para a cabeça de outra pessoa; que reconhece cada frase e cada palavra que terceiriza, mas não a si mesmo; que parte para outro país buscando esquecer sua própria língua a fim de criar um novo eu, um eu que fala húngaro.
“Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.”
Dizem que a língua magiar¹ é uma das mais difíceis de aprender. Dizem que é o único idioma que o diabo respeita. O que é fato é que húngaro não tem nenhuma ligação com a família de línguas indo-europeias, a raiz de todos os principais idiomas ocidentais. E é na unha, ou melhor, no ouvido que José Costa aprende magiar. Inicialmente tentando decifrar palavras da TV, depois tomando aulas com a Kriska. Torna-se especialista na língua, põe cabresto em todas as quatorze vogais e vinte e sete consoantes, fala sem sotaque, chega até mesmo a corrigir os maiores intelectuais do Clube das Belas-Letras.
Chico Buarque desenvolve texto corrido que evidencia essa aprendizagem linguística. Foge dos travessões, engata conversa dos transeuntes no meio dos parágrafos, não se abate com estrangeirismos, e usa – timidamente, é verdade – alguns traços do pós-modernismo: torce a linearidade em alguns momentos, prioriza um conteúdo reflexivo noutros.
A batalha pela identidade se acentua quando, em uma das voltas ao Rio, José Costa descobre que O Ginógrafo se tornara um bestseller. Um livro de um ghostwriter um bestseller! Fascinante e perturbador. História para se contar no congresso mundial dos autores anônimos em algum Hotel Plaza ao redor do mundo. O humor que Chico Buarque desenvolve é sutil e pontual, ainda que capaz de arrancar algumas gargalhadas.
Em Budapeste, Chico descobre seu perfil romancista, ágil e inventivo como o Chico compositor. Escreveu-o em dois anos, sem nunca ter pisado na cidade homônima, colando nomes da lendária seleção húngara de 54, arriscando-se mais do que nos trabalhos anteriores. Publicado em 2003, o livro foi bem acolhido pela crítica e deu ao escritor seu segundo Jabuti (de três), além do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Em 2009 virou filme nas mãos de Walter Carvalho. Assista ao trailer abaixo (com legendas em húngaro, o que faz todo o sentido):
Título: Budapeste
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 120 (edição econômica)
Preço de catálogo: R$ 26,00
1. grupo étnico que se estabeleceu na região da atual Hungria no século IX.


