Em um breve posfácio, Zélia Gattai revela que seu marido dormiu entre meninos de rua para escrever Capitães da Areia. Antes de embrulhar a linguagem das ruas de Salvador e nos entregar um romance vívido sobre a infância abandonada, o próprio Jorge Amado mergulhou na realidade que buscava descrever, o laboratório definitivo do realismo.

Capitães da Areia é sobre um grupo de crianças que criam suas próprias regras de sobrevivência, como um Senhor das Moscas urbano e malandro, um retrato único da juventude marginalizada, que com uma ou outra adição – o problema das drogas, por exemplo, quase inexistente no livro – poderia muito bem ser lido como uma descrição atual das nossas ruas. Escrito entre março e junho de 1937, o livro faz parte da primeira fase de Amado, caracterizada pelas lutas de classes e influenciada pelos ideais comunistas do escritor. Lançado durante o governo Getúlio Vargas, Capitães da Areia foi censurado e queimado em praça pública na Bahia. Como um dedo na ferida da sociedade, Jorge Amado apontava a ineficiência do Estado para lidar com o problema das crianças de rua e jogava a conta da violência pública no colo das autoridades classicistas.

Como é típico em sua obra, o plano de fundo é uma Bahia multifacetada, onde rodas de samba e rodas de capoeira se encontram com Ogum e a Virgem da Conceição, onde a beleza da arte de rua e a feiúra dos hábitos da rua se cruzam e o erotismo, que definiria a segunda fase do escritor, se mistura à inocência perdida da infância. Capitães da Areia é a alcunha do grupo de meninos assaltantes e ladrões que se refugiam à noite em um velho trapiche abandonado. Passam o dia decifrando os segredos da rua, batendo carteiras, invadindo casas e derrubando negrinhas no areal. Não têm mais de dezesseis anos, mas já são criminosos temidos e caçados. São órfãos que se enxergam como homens, são pequenos sobreviventes.

Descrever seus personagens como meninos de rua verossímeis parece ter sido o primeiro desafio de Amado. Neste ponto, a transposição da língua das ruas, suja e cheia de gírias, para o papel, levando a cadência e a simplicidade dos diálogos para a prosa destaca o domínio narrativo que o escritor já apresentava no começo da carreira. Por mais que o leitor possa questionar a maturidade precoce dos Capitães de Areia, é impossível duvidar da maturidade de Amado, na época com 25 anos. A juventude, porém, não passa em branco. O escritor se apressa a firmar suas posições sociais e ideológicas, principalmente no último capítulo, onde a história em si envereda para o segundo plano.

Definir a personalidade e traçar o destino de cerca de dez jovens foi outra grande empreitada do escritor. Pedro Bala, o líder dos Capitães, surge como o personagem de maior destaque, porém, sem Dora, Professor, João Grande, Sem-Pernas, Volta Seca, Gato, Pirulito e Boa-Vida não haveria Capitães da Areia. Cada personagem representa uma faceta da juventude: a descoberta do sexo, o desejo e o ciúme, o ódio, a sede de vingança, a malandragem, a busca ou o distanciamento das origens, a família, etc. O único contato sincero que as crianças desenvolvem com a sociedade é através das raras amizades com o padre José Pedro, o pescador Querido-de-Deus, a mãe-de-santo Don’Aninha e o doqueiro João de Adão. Estas quatro figuras, além da entrada da menina Dora no grupo, acabam por direcionar os destinos de todos os Capitães da Areia.

Como que prevendo que seu romance venceria o tempo como um retrato da infância marginalizada, Jorge Amado não fez questão de delimitar datas. A única referência é a presença do cangaceiro Lampião, “painho” de Volta Seca. Assim, podemos datá-lo entre 1919, ano do começo da militância de Virgulino, e 1938, ano de sua morte.

 

A paz da noite envolve os esposos. O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima. Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor. Mas nos corações dos dois meninos não há nenhum medo. Somente paz, a paz da noite da Bahia.

 

Não é só Capitães da Areia que resiste ao tempo. Toda a obra de Jorge Amado parece manter o fôlego intacto. O escritor, que estreou – como o publicitário Nizan Guanaes, conterrâneo de Amado, definiu o princípio da existência de um baiano – 10 de agosto de 1912, em Itabuna, completaria cem anos em 2012. No último mês, a adaptação de Capitães de Areia chegou aos cinemas com direção da neta do escritor, Cecília Amado [assista ao trailer abaixo]. Para 2012, a Companhia das Letras, que vem reeditando e publicando a obra do escritor, já preparou uma programação especial. Também no próximo ano, a Rede Globo deve lançar uma novela baseada em Gabriela, cravo e canela. Para quem gosta de Jorge Amado, 2012 promete.

 

Imagem de Amostra do You Tube

 

Título: Capitães da areia
Autor: Jorge Amado
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 280
Preço de catálogo: R$24,00

 

 

Related Posts with Thumbnails