As coisas – Georges Perec
Pra começar com um clichê dos mais antigos, Balzac e Flaubert devem ter se revirado no túmulo ali por meados da década de 50. Tanto um quanto outro poderiam reclamar para si – e para a França – a criação do romance moderno. No entanto, cerca de cem anos após as publicações dos clássicos...
O filho de Ester – Jean Sasson
O filho de Ester é um daqueles livros que deviam figurar nas listas de literatura obrigatória. Não pelo romance em si, que, apesar de personagens bem construídos dentro do contexto histórico, vai se tornando um tanto previsível ao longo dos capítulos; mas pela riqueza de detalhes na descrição de dois importantes fatos do século XX:...
Reparação – Ian McEwan
Lembro-me agora de Luiz Ruffato, em entrevista a Jô Soares, dizendo como faz pra sobreviver apenas de literatura. Explicava que após ser premiado com Os sobreviventes, a editora lhe exigiu um novo romance, e acabou sendo escrito as pressas: Eles eram muitos cavalos. Faço relação disso com o processo embrionário de Reparação, de Ian...
Daimon junto à porta – Nelson Rego
Como um Baco à espreita, espiando pelo buraco da fechadura, Nelson Rego conduz a inocência à malícia no pequeno volume de contos Daimon junto à porta. Do primeiro e pseudo-erótico Platero e o mar, ao derradeiro Um pedacinho do tempo diante dos olhos, o escritor gaucho pousa sobre a obra uma sensualidade mascarada, que...
A maldição da pedra – Cornelia Funke
Mundos alternativos povoados por seres sobrenaturais e muita magia tornaram-se lugar-comum para escritores, muitos querem criar suas versões para fadas, bruxas, gnomos, unicórnios e tudo o que eles representam. Em A maldição da pedra, a autora não fez diferente ao criar um mundo atrás do espelho, que acaba sendo visitado periodicamente por Jacob Reckless,...
O romancista ingênuo e o sentimental – Orhan Pamuk
Todo bom romance tem um centro, “uma profunda opinião ou insight sobre a vida”, como define Orhan Pamuk. O escritor turco não é o único a defender esse significado misterioso entranhado na narrativa, é claro. Borges tratava a mesma definição simplesmente por “assunto”. O conhecimento e a manipulação desse “assunto” ou “centro” é o...
E se Obama fosse africano? E outras interinvenções – Mia Couto
O nome do livro é E se Obama fosse africano e outras interinvenções – Ensaios. Mas não é um livro de ensaios que eu tenho em mãos. De todas as interinvenções do livro apenas a última, aquela que dá nome à publicação foi de fato concebida como um escrito, um artigo para o jornal...
A incrível viagem de Shackleton – Alfred Lansing
Se A incrível viagem de Shackleton fosse uma história de ficção, poderia facilmente ser comparada às aventuras narradas por Júlio Verne, porém, um tantinho mais inverossímil. Preparando o terreno para os leitores mais impressionáveis, Alfred Lansing abre seu prefácio advertindo: “A história que se segue é verdadeira”. Ainda assim não é tão fácil acreditar....
As esganadas – Jô Soares
É difícil alguém rir alto quando lê um livro, quando isso acontece, o livro se materializa, o seu “existir espiritual” ganha uma proporção física, rara, de inquietação por parte dos seus leitores. É um resultado positivo e que merece uma levantada no chapéu, uma vez que nossa percepção anda lesionada pela sobrecarga e velocidade...
Claraboia – José Saramago
Claraboia é o segundo romance de José Saramago, escrito na década de 50 e até então inédito. O autor já havia publicado, ainda na década de 40, o romance Terra do Pecado, além de alguns contos. Através de um amigo jornalista, Claraboia foi encaminhado a uma editora lisboeta, mas acabou esquecido. Mais de trinta...
Budapeste – Chico Buarque
Um livro do Chico nem sempre se parece com uma música do Chico. Existem elementos em comum, todavia, como a fixação por personagens femininas. Em Budapeste são duas: Vanda e Kriska. Vanda é a mulher brasileira, âncora de telejornal e mãe de um menino obeso. Kriska é a amante húngara, branca, branca, branca, bela,...

