Claraboia é o segundo romance de José Saramago, escrito na década de 50 e até então inédito. O autor já havia publicado, ainda na década de 40, o romance Terra do Pecado, além de alguns contos.
Através de um amigo jornalista, Claraboia foi encaminhado a uma editora lisboeta, mas acabou esquecido. Mais de trinta anos depois, em 1980, Saramago já era um escritor consagrado quando a editora miraculosamente encontrou os originais do livro e expôs o desejo de publicá-lo. Foi então a vez do escritor recusar Claraboia, que só pôde ser publicado, com a permissão dos familiares, um ano após seu falecimento.
Em Claraboia descobrimos um Saramago bem diferente daquele encontrado em Ensaio sobre a cegueira ou A caverna. Seus procedimentos literários estavam claramente ainda em formação. Os parágrafos com pontuação clássica nos fazem fechar o livro para conferir se realmente estamos lendo uma obra do escritor.
Tudo acontece em um prédio numa rua pobre de uma Lisboa primaveril de 1952. É o interior escondido além da fachada, para onde a luz adentra, que o autor nos leva. Mais do que um prédio, conhecemos seus moradores, seus cotidianos e suas inquietações interiores.
Silvestre é um sapateiro que vive com a bondosa esposa, Mariana. Adriana mora com a mãe, a irmã e tias, todas apaixonadas pelas sinfonias de Beethoven. Lídia vive sozinha e é mantida pelo amante. Carmem e Emílio formam um casal com sérios problemas matrimoniais. Mas com certeza, o personagem mais peculiar da trama é Abel, que chega para alugar um quarto na casa de Silvestre e acaba influenciando a vida dos demais moradores do prédio.
(…) permitiam-lhe pensar e dizer que desejava conhecer o sentido oculto da vida. (…) Que ganhara em fazer tão largo rodeio para, afinal, vir dar ao caminho por onde seguiam aqueles que resolutamente quisera deixar? “Queriam-me casado, fútil e tributável?”, perguntara o Fernando Pessoa. “É isto o que a vida quer de toda a gente?”, perguntava Abel.
É nesse ponto que sorrimos, pois encontramos o Saramago da inquestionável profundidade e preocupação com o espírito humano. Abel tenta descobrir qual a sua utilidade no mundo, ao passo que Silvestre tenta convencê-lo de que o amor é a resposta para todos os problemas. Ambos travam juntos uma tentativa de dar sentido à vida, com reflexões no melhor estilo saramaguiano.
Comparado às obras clássicas do autor, Claraboia fica devendo um pouco. Não tem a mesma complexidade de Ensaio sobre Cegueira, por exemplo. Da tentativa de publicação do livro, na década de 50, até Manual de pintura e caligrafia, temos um hiato de quase 30 anos. Não resta dúvida da evolução do escritor neste período quando pensamos em Levantando do Chão, publicado em 1980, livro com o qual Saramago começou a ganhar notoriedade.
Nos anos 80 e 90, Saramago consolidou seu estilo único que o levou ao Nobel de Literatura de 98 – o único de um escritor de língua portuguesa. Porém, em Claraboia já é perceptível sua persona literária, sua riqueza e a profundidade características. A curiosidade gerada pelo livro e, é claro, sua qualidade não deixam dúvidas de que a publicação foi um dos grandes acertos nos últimos meses de 2011, principalmente para os fãs do escritor, pois o valor literário de Claraboia é tão alto quanto os demais livros de Saramago.
Título: Claraboia
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 384
Preço de catálogo: R$ 46,00


2 comments
Bruno says:
jan 17, 2012
Poxa, não sabia desse lançamento. Obrigado Luana, por publicar essa matéria! Agora é caçar a obra!
Links da semana « Blog da Companhia das Letras says:
jan 19, 2012
[...] Claraboia, de José Saramago: “em Claraboia já é perceptível sua persona literária, sua riqueza e a profundidade características. A curiosidade gerada pelo livro e, é claro, sua qualidade não deixam dúvidas de que a publicação foi um dos grandes acertos nos últimos meses de 2011, principalmente para os fãs do escritor, pois o valor literário de Claraboia é tão alto quanto os demais livros de Saramago.” (Luana, Mais 1 Livro) [...]