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Pablo Sica tem seus motivos para desconfiar da existência do Acre, o mais isolado dos Estados brasileiros. No 1º Encontro de Twitteiros de Maringá, ele tocou no assunto e deu a impressão de realmente acreditar no que dizia. Falou em uma suposta conspiração para fazer o brasileiro crer que lá distante, mais perto do Peru e da Bolívia do que do restante do Brasil, em meio à Floresta Amazônica, há uma capital e tantas outras cidades. Duas doses de café alcoólico mais tarde, foi além: mencionou algum envolvimento da Rede Globo, que teria com o Acre uma ligação semelhante à da Iniciativa Dharma com a Ilha de Lost.
Alguns dos twitteiros do Grupo dos Nove (G9, como ficaram conhecidos os nove participantes do primeiro encontro) se entreolharam, como se dissessem: “que diabos colocaram no café dele?” No encontro – combinado no Twitter, claro –, mais de 20 confirmaram presença, mas só oito deles cumpriram com a palavra. Pablo, porém, foi o único que compareceu sem anúncio prévio. Marcou presença porque era em Maringá, em chão conhecido. Fosse no Acre, não iria.
No G9 do Twitter maringaense, a maioria é jornalista. Um deles, atiçado pela curiosidade inerente à profissão, marcou um café com Pablo no mesmo shopping do encontro anterior, na mesma livraria. Somente os dois – esposa de um viajando e a namorada do outro, também –, e uma tarde inteira pela frente. Não demorou para Pablo falar da conspiração.
O jornalista aproveitou para fazer muitas perguntas, mas nem em todas obteve respostas. “Há coisas que um incauto talvez não deva saber”, cogitou, em pensamento, o jornalista. “Há coisas que é melhor que um jornalista não saiba; não num primeiro momento”, deve ter pensado Pablo. O lance de o Acre não existir, ao menos não da forma como ensinam os livros escolares, era inquietante, mas não tanto quanto a participação da Dharma, ou melhor, da TV Globo na dita conspiração. Difícil imaginar que alguém ACREditasse nisso.
Para ser mais convincente, Pablo relatou passagens vividas por dois de seus amigos. Um, das Forças Armadas, havia sido convocado para uma missão no Acre. Outro, voluntário em um clube de futebol do Mato Grosso, acompanharia o time num amistoso em Rio Branco. Antes, ambos não acreditavam na conspiração, agora, ambos já não têm tanta certeza.
– Fui relacionado para uma missão no Acre, no mês que vem – comentou o amigo de Pablo, do Exército, por telefone.
– Pode esquecer. Se minha teoria está certa, vão cancelar a missão.
– Por que cancelariam?
– Porque o Acre não existe – afirmou Pablo, que, no mês seguinte recebeu novo telefonema:
– Meu amigo, estou assustado – disse o militar. – Cancelaram a missão no Acre e nem explicaram o motivo – acrescentou.
– Não te falei. Qual a explicação para o Acre, que faz fronteira com dois países, ser o único Estado brasileiro sem base aérea – disse Pablo, mais cheio de razão do que nunca.
Outra vez, contou Pablo ao jornalista, um de seus amigos acompanhou um time de Mato Grosso em um amistoso que se daria em Rio Branco. No avião, tão logo o piloto anunciou o procedimento de pouso na capital do Estado, as aeromoças se apressaram em fechar as ‘cortinas’. “É um procedimento padrão”, diziam, “fechem logo”.
– O que houve, por que não pousamos no aeroporto? – questionou o amigo de Pablo, assim como alguns jogadores.
– Tivemos um problema com a torre de comando. Vamos, há um ônibus esperando por vocês – disse o encarregado da recepção da delegação mato-grossense. O que aconteceu dali em diante, conforme relatou o amigo de Pablo, foi surreal.
– Fomos levados a um campo de futebol em um ônibus com vidros escuros. Mal dava para ver do lado de fora. Quando descemos no estádio, a poucas horas da partida, não vimos torcedor algum – relatou. – Vi ali um varredor de rua e perguntei a ele para que lado ficava a cidade. Sem dar uma palavra, o varredor, de macacão cinza, deu-me as costas e continuou varrendo.
Inquieto e irritado, pela falta de respeito do gari, o amigo de Pablo insistiu. Aproximou-se e, ao tocar o ombro do varredor, disse:
– Você pode me responder para que lado fica a cidade? – insistiu. O gari se virou, fitou nos olhos o mato-grossense, que, ao reparar o logotipo da Rede Globo no bolso do uniforme daquele senhor, ficou perplexo e, até deixar o Acre logo após o jogo, não tornou a abrir a boca. Sentiu medo. Existiria, de fato, a uma conspiração envolvendo o Acre? Correria ele algum risco? Por que eles não foram levados para visitar a cidade? De qualquer forma, para o amigo, Pablo já não parecia tão insano quanto antes.
Regada a um bom café com torta de limão, a conversa prosseguia sem pressa, na cafeteria do shopping. O jornalista não se dava por convencido, até porque ele não conhecia os dois amigos de Pablo. Conhecia, sim, uma ex-colega de faculdade que, dias depois da colação de grau, mudou-se de “mala e cuia” para Rio Branco.
– Tenho uma amiga que mora em Rio Branco há cinco anos. Se formou em Jornalismo comigo e hoje dá aulas na Universidade Federal do Acre. O que você me diz disso? – perguntou a Pablo, em tom de confronto.
– Depois que essa tua amiga foi para lá, você a encontrou novamente, falou com ela?
– Sim, conversamos com alguma frequência pelo MSN. Ela diz estar feliz por lá.
– Ok, MSN. Mas você a viu pessoalmente depois que ela foi para o Acre.
– Não.
– Algum de teus colegas de faculdade a viu?
– Não que eu saiba.
– Ela já retornou de lá para visitar os amigos?
– Não! – e a essa altura o Jornalista já começava a temer pela colega.
– Algum conhecido já foi visitá-la e voltou para contar história?
– Acho que ninguém foi visitá-la.
– Até que alguém faça isso, e prove, lamento te dizer: talvez vocês não vejam mais essa amiga.
O gole seguinte de café teve sabor de suspense, um misto de pavor e medo. Segundo Pablo, a colega de Jornalismo não corria risco de morte, mas, por algum motivo que ele mesmo desconhecia, jamais retornaria do Acre. Mistérios da conspiração. Talvez ela também estivesse usando macacão ou jaleco com logotipo da Globo.
– Ela me convidou para ir visitá-la – comentou o jornalista.
– Eu não iria – disse Pablo. – Estão querendo te recrutar, é assim que funciona.
– E se de fato houver algum mistério por trás do Acre e eu for vê-la?
– Aí não tornaríamos a vê-lo, infelizmente.
– E os heróis do Acre, como Plácido de Castro e Chico Mendes, o que você me diz deles?
– São personagens dos livros escolares. E faz tempo que não acredito mais na versão oficial que nos ensinam sobre o Acre.
– Quer saber, vou visitar minha colega no Acre, mas só se ela vir de lá antes.
– Nem assim eu iria – exclamou Pablo. – Terminou o café?
– Sim.
– Garçom, a conta por favor.



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set 20, 2010
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