Diante da geladeira, e olhando para dentro dela como se tivese visto uma assombração, Pretty Woman ficou em silêncio por alguns segundos. Mediu as palavras… e foi diplomática: “acho que tenho de vir menos em sua casa, para você ter mais tempo de limpá-la”. Fosse ela menos polida, diria: “Não acredito no que estou vendo, seu porco. Alguma vez na vida você já limpou sua geladeira?”
Lembro-me bem da resposta dada à época: “Tem de limpar… pensei que isso fosse automático”.
No terceiro compartimento, de cima para baixo, os restos da salada de manga com creme de leite do réveillon completava, naquele dia, aniversário de um mês. A aparência embolorada, entretanto, dava a impressão de a salada já estar ali há pelo menos um ano. Não fosse o ambiente frio, provavelmente seria uma salada-mofo-com-larvinhas-brancas.
Morar sozinho – ou longe dos pais – tem suas vantagens e as principais delas, sem dúvida, são a privacidade e a liberdade. Você passa a gerenciar o negócio, a ser o presidente da situação, a ter o livre arbítrio de criar as regras a seu bel-prazer. A desvantagem de morar sozinho é que sem o “Congresso”, digo, sem a mãe por perto, acaba-se esquecendo de criar “leis” básicas, como a da limpeza mensal da geladeira. Movido pela vergonha, tratei de fazer o degelo e limpar o refrigerador no dia seguinte.
A manga com creme de leite, do pote de plástico, estava com péssima aparência, mas ainda não cheirava mal. O mesmo não se aplicava ao conteúdo que duas panelas, bem tampadas, escondiam. Uma delas, que fora usada para cozinhar arroz branco, tinha aspecto de queijo mofado, com tufos de fungos verdes. A outra, com a arroz a grega, passados 30 dias, abrigava uma outra espécie de fungo, branco, parecido com algodão, que ocupava todo o espaço entre o arroz e a tampa.
Um espetáculo da natureza, diria Darwin. Aqueles organismos haviam se desenvolvido em ambiente hostil, no frio de uma geladeira pouco frequentada e que havia programado para visitar ao máximo. Tivesse o homem semelhante potencial de adaptação, teríamos algumas dúzias de cidades na Antártica. Com certo nojo daquelas colônias de microorganismos, cogitei levar as panelas ao forno. Só não o fiz porque, antes, imaginei o odor que o processo de aquecimento liberaria da comida azeda.
Passados muitos meses desde aquele episódio, lembrei-me do arroz com fungos ao lavar outra panela cheia deles – essa, porém, esquecida sobre a pia em dias de calor. Os fungos que se desenvolveram no frio, vale o relato, eram mais bonitos. Aliás, bonita também era a diplomática Pretty Woman. O namoro terminou faz algum tempo, mas é possível que ela lembre de minha habitada geladeira como se fosse hoje.



3 comments
Letícia says:
mar 23, 2011
HAHAHA Incrível!
Hoje mesmo eu lavei uma tupperware com um resto de pudim que há não sei quanto tempo ocupava aquele lugar na geladeira. Havia um começo de fungos, dos verdes, minha cor favorita. Não para fungos, claro. (=
LF says:
mar 24, 2011
Cara Letícia
Esses fungos poderiam viver numa boa no polo sul, sem cobertor, casado ou chocolate quente hehehe. Quando tiver um tempo, visite meu blog de crônicas:
http://www.luizfernandocardoso.blogspot.com
J. Guimarães says:
ago 2, 2011
Muito divertida essa crônica.
Só é ruim abrir a geladeira e se deparar com comida estragada.
Mas, faz parte da vida, não é?