Por José Guimarães
Um dia, num dos amplos corredores do Hospital das Clínicas de São Paulo, dei o braço a uma jovem mulher cega muito sorridente que me pediu para levá-la ao guichê para a marcação de exames.
Disse-me no caminho, sempre sorrindo, que morava como clandestina nos Estados Unidos. Mas daí, quando soube que ficaria cega, decidiu voltar para o Brasil.
- O melhor lugar de um doente – disse sorrindo – é na terra da gente. A gente tem de ficar na terra em que nasceu quando precisa de ajuda.
Fiquei pensando na dificuldade que encontra uma pessoa que antes enxergava tudo e agora não enxerga nada. Em como ela se sente…
Eu estava ali em busca do diagnóstico para uma doença que me persegue há mais de dez anos. Ela, para marcar exame para um velho que disse trabalhar num sítio de freiras, que tem uma doença que eu acabara de tomar conhecimento minutos antes, num dos ambulatórios do mesmo hospital, chamada miastenia.
Miastenia? Eu nunca tinha ouvido falar nessa doença. E os sintomas? Ah, os mais absurdos possíveis. E o diagnóstico, então… Coitados dos doentes…
Pesquisei sobre a doença e descobri: Miastenia é um distúrbio muscular que se deve, possivelmente, à presença de anticorpos contra a ação de receptores de acetilcolina que exercem funções neuromusculares. O doente apresenta fadiga e exaustão do sistema muscular, de intensidade variável, não se observando atrofia muscular ou distúrbio sensorial.
Fiquei, então, com pena do velhinho.
- O problema é que ele não quer fazer nada – disse-me a mulher. – A freira diz que é pra ele cuidar do jardim, fazer serviço leve, mas nem isso ele quer fazer.
Fiquei imaginando se tivesse também de fazer alguma coisa forçado, com a dor constante e o desequilíbrio no corpo que sinto por causa da doença que me persegue. Pior de tudo, o coitado já deve ser bem velho.
Descobri que jamais conseguiria determinar quem seria mais doente. A moça que ficou cega depois de passar a vida toda enxergando. O velho que tem uma doença, mas que o obrigam a trabalhar. Ou eu que não sei de onde veio uma neuropatia periférica que me persegue, mas que consigo pesquisar as mais variadas formas de cura.
