Como um Baco à espreita, espiando pelo buraco da fechadura, Nelson Rego conduz a inocência à malícia no pequeno volume de contos Daimon junto à porta. Do primeiro e pseudo-erótico Platero e o mar, ao derradeiro Um pedacinho do tempo diante dos olhos, o escritor gaucho pousa sobre a obra uma sensualidade mascarada, que ora se escancara para o leitor, ora se intimida, provocando de canto de olho.
A comparação com o deus romano não é gratuita. Assim como os latinos tomaram emprestado o Dionísio para inventar o Baco, miraram a filosófica “daimon” para criar a religiosa “dæmon”, também conhecida em terras lusófonas como “demônio”. Uma tradução empobrecedora, sem dúvida.
Nos contos de Nelson Rego, os personagens invariavelmente sucumbem ao desejo, uma influência interna e externa. Daí o daimon do título. A palavra grega expressa uma poderosa força natural que nos cerca, espírito que nos atiça os sentidos, ainda que isenta do dualismo “bem ou mal”.
Os daimons aqui têm uma quedinha pela desolação, por praias varridas por ventos frios, por rincões bucólicos, cenários que sugerem o Rio Grande do Sul do escritor. Também têm preferência por artistas, malucos e crianças. Pois não seriam eles mais suscetíveis às suas ações?
Em Platero e o mar, o escritor emprega o erotismo em um grupo de garotos de onze a doze anos. Excitadíssimos com a pouco inocente Inocência, os malandros fazem de tudo para que a moça se entregue nua aos seus desejos e curiosidades crepusculares. A juventude erotizada também invade Recital dos mortos, no qual um médium recita uma infinidade de nomes e causas de mortos e mortes. O médium só dá um tempinho no profundo transe para incitar a jovem narradora a um tête-à-tête.
No melhor do livro, A boca do jarro, o erotismo proposto por Nelson Rego alcança o máximo de abstração. Caminhando pela praia, um professor teoriza a inutilidade filosófica e retórica da metáfora enquanto sua aluna se dedica a perturbar o velho com argumentos bem fundamentados e a exposição das coxas bem torneadas refletidas no espelho de areia.
No quesito melhor ideia, porém, vence Na verdade é isso aí, ó. Ainda que prejudicado pela estrutura monolítica do diálogo e a repetição incansável de vícios de linguagem, o conto se destaca pela história da índia que não era mais índia, que perdera seu guarani sem ter aprendido o português ou o inglês, e que se comunicava mimicamente (ou telepaticamente) com um dos protagonistas do diálogo sobre um sonho contínuo programado para começar a cada vez que a índia entrava no elevador bifásico de um arranha-céu nova-iorquino. Um dos poucos contos que os daimons eróticos não se escondem junto à porta.
Daimon junto à porta, vencedor do Prêmio Açorianos 2011, foi uma boa surpresa. Um livro corretamente pouco pretensioso, equilibrando sensualidade e inocência, intensidade e alheamento, possessões e mistérios, contos narrados como se observados à distância, memórias da manhã seguinte.
Título: Daimon junto à porta
Autor: Nelson Rego
Editora: Dublinense
Número de páginas: 128
Preço de catálogo: R$ 27,00


2 comments
calopsitaescapista says:
mar 7, 2012
[...] o que eu achei de daimon junto à porta, respondi ao meu editor: sobre o daimon, eu acho que e a tua resenha já diagnostica isso, de um jeito mais diplomático do que eu colocaria, ao dar conta do tanto de [...]
Deborah Anderson says:
abr 22, 2012
Fiquei realmente surpresa com o livro. A originalidade e qualidade de sua linguagem e de seu conteúdo são excelentes. A polifonia das vozes cria estranhos efeitos e é instigante como a profundidade e a simplicidade caminham juntas ao longo dos contos. Não é à toa que este livro, de um autor quase estreante, tem sido apontado por resenhistas como um dos melhores livros de 2011.