Por Felipe Borges

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Ideologia, sangue e esperança. Essas palavras podem resumir, de forma geral, a história que se passa em Os dez dias que abalaram o mundo. Escrito pelo jornalista norte-americano John Reed, o livro conta, em primeira pessoa, os episódios da Revolução Bolquevique na Rússia, em 1917. Dessa maneira, ajuda a entender o que aconteceu no país que vivia sob um regime de moldes feudais em pleno século XX e que se converteu, de forma abrupta, numa nação socialista. A obra apresenta diversas demonstrações de fanatismo e esperança por parte dos envolvidos na história. Vistas hoje, elas soam um tanto quanto ingênuas, agora que sabemos como tudo acabou.

Reed cobria a Primeira Guerra Mundial quando estourou a Revolução Bolchevique. Socialista convicto, deslocou-se para a Rússia a fim de acompanhar o histórico momento em que o país, já atrasado devido ao regime czarista, desmoronava frente os ataques da Alemanha e reagia radicalmente a isso, através da revolução. O quadro pintado pela obra é de caos total e incerteza. Reed define esse ambiente em uma frase: “Petrogrado tinha o aspecto característico das horas que precedem as grandes tempestades”. O país parecia sem saber que rumo seguir. As divisões partidárias eram tantas que existia até mesmo um grupo intitulado “socialistas revolucionários de direita”. Reed explica detalhadamente as facções políticas e apresenta os vários personagens envolvidos, antes de iniciar os relatos. Sem essas descrições, o leitor ficaria completamente perdido em meio a nomes como Kamenev e Volodarski.

Boa parte do livro se passa em reuniões e congressos, marcados por discursos inflamados e reações de adoração pura ou ódio extremo por parte do público. Alguns envolvidos discursavam por até 12 horas num dia (com interrupções, obviamente). O destino de um país inteiro era decidido em sessões bagunçadas e improvisadas, onde homens se digladiavam ideologicamente. Nesses episódios, as partes mais interessantes são as protagonizadas por Lênin e Trotsky, que ainda buscavam um lugar na História. Fervorosamente adorados pelo povo, foram as principais lideranças na revolução. Reed descreve Trotsky como um sujeito sarcástico e seguro de si. É interessante observar o fato de que Stálin, que comandaria a URSS após Lênin e seria o mandante do assassinato de Trotsky, é citado apenas uma vez, quando são apresentados os nomes que iriam ocupar os postos do governo bolchevique.

O diferencial de Os dez dias é que não se trata se um simples reportar do que se passou. Reed cria cenas vivas, marcantes, que buscam transmitir a turbulência e a paixão envolvidas no processo revolucionário. Para isso, faz uso constante de adjetivos. Sua preocupação não foi captar só o que acontecia no âmbito geral dos acontecimentos, mas também os detalhes presenciados, como um velho militar que chorava como criança quando o hino da revolução foi entoado em uma reunião do exército vermelho bolchevique.

Os dez dias pode ser visto ainda como um manual de jornalismo. Reed não se contenta com o que ouve os outros falarem. Durante todo o relato, ele viaja por diversos pontos da Rússia, conversando com todos os que cruzam seu caminho, entrando muitas vezes em locais proibidos, a fim de apurar melhor. Em certo momento, inclusive, ele conta que adentrou no Palácio de Inverno adotando um ar imponente diante dos guardas e dizendo, em tom enérgico, que era do “serviço oficial americano”, enquanto exibia seu passaporte.

O gosto amargo deixado pelo livro não é culpa da escrita de Reed, que se mostra envolvente e detalhada, funcionando como uma vibrante aula de História. O problema é ver como as esperanças e os sonhos de toda uma nação se desmancharam no ar, mesmo após a revolução ter sido bem sucedida. Por mais que milhões de russos tenham melhorado sua condição de vida sob o regime socialista, é difícil não pensar que os rumos tomados pela URSS se desviaram da proposta inicial de Lênin e Trotski e da esperança dos operários e camponeses que se dispunham a matar e a morrer pelo ideal socialista. Lendo hoje o livro, a crença fanática dos russos num governo pacífico, igualitário e popular se mostra pura ingenuidade. Dentro da literatura, Os dez dias que abalaram o mundo pode ser colocado como o primeiro volume de uma série cuja continuação é 1984, de George Orwell, obra que também serve como crítica ao nazismo. Por outro lado, não deixa de ser comovente ver a entrega das pessoas por um ideal, algo pelo qual lutar na vida. Ainda mais se olharmos para boa parte da geração atual, sem nenhum tipo de engajamento ou conhecimento histórico, e cujo Big Brother que conhecem é apenas aquele da televisão.

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Dez dias que abalaram o mundo – John Reed

História / Jornalismo literário

Penguin / Companhia das Letras = R$ 21,90

Editora L&PM (pocket) = R$ 19,00

Editora Ediouro = R$ 76,90

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