Por Hugo Crema
brasília, calor nublado, stephen malkmus no som.
Como semana que vem quero problematizar o rótulo transgressor, usado a torto e a direito no por aí, esta semana vou falar sobre referencial e representação. Espero ser claro o suficiente e não muito chato. Borges usa sempre uma metáfora que pode servir pra explicar o meu ponto de hoje: se um espelho deforma infimamente a imagem que reflete, após infinitos espelhos teremos uma imagem que tem nada a ver com a original. Esta metáfora serve pra falar do filme Sinédoque Nova York: cada reprodução carrega, por um motivo ou outro, sua distorção, pra não falar sua anulação. E é pela sinédoque – sinédoque=metonímia, metonímia esta que não é exata nunca – que compararemos dois livros separados no tempo por 44 anos. Não só a cena inicial de PanAmérica (José Agrippino de Paula, reeditado em 2001 pela Papagaio) descreve uma produção megalomaníaca de cinema, como o leitmotiv, o lastro do livro, o objeto que o autor ambiciona subverter, é o cinema, mais especificamente as repercussões deste cinema, importado. Mote compartilhado com Chegaram os Americanos (Paulo Ribeiro, Modelo de Nuvem, 2011), que narra a incursão de um diretor de fotografia americano a uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. Essa semelhança é só de partida. As preocupações de cada um não podem ser mais opostas, e a maneira de se apresentar por meio de títulos, com seus subtítulos, já indica isso. PanAmérica – Epopéia – deixa entrever uma ambição muito mais monolítica e muito mais heróica do que o dialógico Chegaram os Americanos – Romance-reportagem. Agrippino de Paula quer a fixidez e a não historicidade das celebridades – e vale ressaltar a importância do cinema como arma de propaganda em épocas de guerra fria -, para isso refunde os mitos existentes em novos mitos, em uma mitologia nova, exemplar da fraude de qualquer mitologia, vigente ou inventada. Paulo Ribeiro quer pôr na berlinda o que existe de garantido, se preocupa mais com as recepções dessa mitologia, vai ao imaginário popular colher as impressões da passagem dos estrangeiros. Ao partir da perspectiva do visitado que se impressiona, ao lançar mão da voz desse visitado, o autor torna mais pessoal – e por isso mais coletiva? – a problematização da presença dos Estados Unidos no país. E ambos são quase esquemáticos nessa recusa ao americano: o Joe Dimaggio de um é o Nelson Rockefeller do outro.
É quase como se o Paulo Ribeiro quisesse avaliar caso a caso os resultados da exposição massiva dos habitantes de Bom Sucesso à América que, reinventada, maximizada, dá origem à PanAmérica.
Vale lembrar também que a apropriação de material existente gera um outro efeito, que pode ser explicado por outra figura de linguagem: a paralaxe é o efeito aparente de deslocamento que ocorre ao se mudar a perspectiva pela qual se observa um objeto. E é por meio da paralaxe que cada um vai controlar a distorção que quer dar ao objeto. A linguagem empregada e a escolha do narrador já são exemplos. A aproximação do Agrippino de Paula se relaciona com a do Warhol, do ready-made como acusação – o objeto ressignificado continua tão frontal quanto sempre – , a linguagem é direta, o narrador se apresenta íntegro. Enquanto isso, a do Ribeiro lança mão de uma perspectiva quase regionalista – o narrador usa o vernáculo pra ser capcioso. Os própositos são diferentes, os meios são diferentes, as distorçõezinhas que cada um nos quer infligir são diferentes. Um prefácio na minha edição do PanAmérica chama o livro de a Ilíada cantada por Max Cavalera, e é isso mesmo, um livro monológico e espetacular pra denunciar o que de monológico e espetacular haja na nossa sociedade, é um livro que confia em que a partir dele o leitor cumpra seu papel crítico mínimo. Já o Chegaram os Americanos é mais intrincado – não considero nenhum dos dois livros experimentais ou transgressores -, sua denúncia é mais insidiosa. Os dois são muito gostosos de ler, brasileiros até o talo, dos poucos que o reino da ressignificação consegue nos apresentar como relevantes e não como pastiches insensatos ou colagens sem propósito.

