É possível estranhar El Hijo del Coronel dentro da obra do Roberto Bolaño. Incluído numa reunião póstuma de rascunhos, parece num primeiro momento que falta certa força e sobra esquematismo ao conto, dos poucos com começo, meio e fim de El Secreto del Mal (Anagrama, 2007). Mas as digressões, o fatalismo e a resignação do chileno não demoram a se mostrar.
Ao contrário do B de Últimos Atardeceres en la Tierra e do García Madero de Detectives Salvajes, que querem parecer adultinhos, o narrador d’El Hijo del Coronel não tem problemas com soar jovem e fluído, abraçar gírias e vícios de linguagem. O tema e a introdução do tema reforçam essa juventude, narra-se um filme tipo b visto de madrugada na televisão. Mas não se engane o leitor, a estrutura de um filme raso estar ali no primeiro plano não torna o conto fácil ou plácido assim. A começar pela manobra do narrador pra se distanciar dizendo que “viu na televisão”: há no mínimo dois patamares aí de significação, o do narrador e o do cineasta. O que me intrigou de verdade foi o narrador anunciar logo no começo uma relação entre enredo do filme e a própria vida e depois nunca elucidar a tal relação. Ou seja, passa a caber ao leitor avaliar o que há ali de relato do filme e o que há de contaminação pessoal. Contaminação é uma boa palavra quando se trata de um conto sobre um filme de zumbis, temática repisada sobre a qual não tenho muito a comentar¹, até porque não é esse o filão a que o autor quer filiar o conto. Essa distância entre narrador e narrado fica de fora da animaçãozinha da Granta, que, de resto, vale pela trilha sonora. Em entrevista, Rodrigo Fresán comenta a obsessão do Bolaño pelas fofocas televisivas e pela imprensa marrom, essa é uma das obsessões a que o conto responde. El Hijo del Coronel se filia a passagens de 2666² e Estrella Distante³ onde o Bolaño usa um meio visual para abordar significados que às vezes escapam à literatura, meio colocando o olhar como pedágio do discurso. lml.
Para assistir à animação baseada no conto do Bolaño é só clicar na imagem:
¹ pelo menos não algo que o Daniel Galera já não tenha dito na orelha de Areia nos Dentes.
² o primeiro filme de Robert Rodriguez.
³ toda a atuação de Carlos Wieder.

