Estórias Abensonhadas abre com o aviso de que os contos do livro foram escritos depois da guerra, entre as margens da mágoa e da esperança, uma época em que, para o autor, só restavam cinzas, destroços sem íntimo. Esta é atmosfera está presente sim, no livro, mas é apenas parte da experiência da leitura de Estórias Abensonhadas. A menor parte, eu diria.
São 26 contos em 160 páginas de uma prosa leve, ágil e ao mesmo tempo profunda e inventiva. Lembro que Ezra Pound professa em seu ABC da literatura que a grande literatura é “linguagem carregada de significado até o máximo grau possível” e imagino o quanto as éstórias de Mia Couto estão próximas deste ideal ainda que – e talvez por isso mesmo – confeccionadas a partir da oralidade. No ensaio “Línguas que não sabemos que sabíamos” (do ótimo E se Obama fosse africano e outras interinvenções) Mia Couto diz que a oralidade é um território universal de lógicas e sensibilidades submersa e secundarizada pelo universo da escrita. Acredito que o autor é herdeiro e porta-voz destas sensibilidades que brotam não só dos rincões isolados da África, mas de onde quer que ainda se permita algum senso de maravilhamento com o mundo.
Mas voltando às outras atmosferas presentes no livro. Existem contos que parecem saídos direto de alguma estória ancestral, lenda ou segredo de avós (como “Nas águas do tempo” ou “Pranto de Coqueiro”) e outros – para mim o grande tema do livro – que falam da reconstrução das identidades – ou o encontrar uma identidade por parte dos marginalizados (como o “O cego Estrelinho” que descobre o amor, ou a independência dada como presente em “O Perfume” e mesmo o exercício da sexualidade em “Sapatos de tacão alto”).
Um dos contos do livro, ao definir o que seria uma estória, acaba definindo o estilo de Mia Couto “a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade (…) os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo” é essa qualidade vaporosa, quase etérea que percebemos no autor – a palavra parece querer se desprender do papel, voltar ao estado de oralidade, combina-se em novas fragrâncias e sabores pela conhecida alquimia neologista de Couto. Não que a experiência esteja livre de algum estranhamento, por vezes os neologismos carregam no lúdico, trazendo um quê de infância que quase soa artificial, mas o sentimento logo se dissipa, trocado pela pura poesia.
E prepare-se, absolutamente todos os contos tem pelo menos um achado, uma frase que vai entrar para a sua lista de citações favoritas, garanto. Mia Couto é uma experiência literária única.
Título: Estórias Abensonhadas
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 160
Preço de catálogo: R$ 35,00

