Recentemente foi publicada uma entrevista de Philip Roth onde o escritor faz uma série de afirmações fatalistas sobre o futuro da cultura literária. Para o autor a literatura já perdeu a disputa contra a tecnologia. Livros não são páreo para o mais novo gadget e recebem atenção nula dos jovens. Para o autor o futuro da ficção é alguma literatura hibrida, com recursos audiovisuais. 

A declaração chama a atenção pelo vulto do autor pois volta e meia topamos com esta visão apocalíptica em blogs e publicações diversas. Há quem sustente que não há nada na literatura que quadrinhos e cinema não possam emular. Também tem se tornado lugar comum de que a narrativa dos games superou as outras formas de narrativa.

O curioso é que o novo livro de Roth mostra justamente as qualidades que mostram o ponto onde a literatura jamais poderá ser superada por qualquer outra mídia ou suporte narrativo.

É o ano de 1944 e Bucky Cantor tem 23 anos, foi criado pelos avós (sua mãe morreu no parto e seu pai era um ladrãozinho), é atleta, está criando coragem para pedir sua namorada em casamento, tem um profundo senso de responsabilidade. Gostaria de estar servindo o país na guerra, mas sua profunda miopia não o deixou, apesar das inúmeras tentativas. Contenta-se (mas não se conforma) em fazer sua parte como monitor de pátio na escola pública do bairro judeu na cidade de Newark em um verão especialmente quente.

É neste verão também que uma epidemia de pólio assola a cidade e vai matando ou aleijando as crianças da cidade e principalmente do bairro. Cantor, criado para a ação e remoendo sua não-participação na guerra, vai acumulando responsabilidades e angústias rodeado da morte de crianças e do calor sufocante ao mesmo tempo em que deseja a companhia da namorada, monitora de um acampamento de férias nas montanhas, protegido da epidemia.

E os conflitos do Sr. Cantor vão se agravando em face às escolhas que toma de maneira cada vez mais grave, uma pressão tal que nos perguntamos quanto mais o Sr. Cantor pode alimentar sua fornalha de culpas sem explodir. Tudo conduzido pela habilidade narrativa magistral de Philip Roth que inclusive usa de um curioso malabarismo narrativo que o Tony Bellotto já comentou no blog da Cia. Nêmesis é um drama denso que permite reflexões e nos leva a um exercício de empatia que só a literatura pode proporcionar.

 

Título: Nêmesis
Título original: Nemesis
Autor: Philip Roth
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 200
Preço de catálogo: R$ 36,00

 


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