(brasília, chuva torrencial pro padrão brasiliense, mind eraser, do black keys, no som)

 

Os habitantes do Rio Grande do Sul sempre arranjaram uma maneira, até hoje arranjam, de destacar o quão separado o estado está do resto do país ao qual, por acaso e infortúnio, pertence. Isso vai das sagas regionalistas ao sistema de referências cool que estes habitantes usam para se comunicar via twitter. Vai das oficinas de criação literária às editoras aos prêmios. Nesse sentido, a simples existência de um cara chamado Amilcar Bettega Barbosa desafia essas consolidações protecionistas, e isso se reflete na prosa, e vice-versa. Contista sempre, num movimento gauchesco, o primeiro livro, O Voo da Trapezista, saiu pelo IEL em 1995 e ganhou um Açorianos de revelação. A partir daí, bolsas e tralalas mediando, o autor foi morar no estrangeiro. Dois livros Deixe o Quarto Como Está (2002) e os Lados do Círculo (2004) e um Portugal Telecom, dá pra opinar que ele não produz caudalosamente. Noto ali aquela questão que eu falei aqui, de pouquíssimas influências detectáveis. O que mais me chama atenção nessa prosa é justamente essa recusa às filiações, isso em vários níveis. A escrita sai como se Spock, vulgo Sheldon, pros mais novos, descesse à terra e não conseguisse se comover, apenas notar que um segurança pega dois guris pela cabeça e choca uma contra a outra. É uma prosa de uma limpidez vocabular e de enredo invejáveis, que deixa pra estrutura e pros não-ditos da história as preocupações com instabilidades. Falar do elemento fantástico, de um hipotético parentesco com o muito mais enfático Murilo Rubião, é besteira na medida em que só é literatura se não confirma o leitor em alguma medida. Inserido no famigerado projeto Amores Expressos, o autor está devendo pro mundo um livro sobre Istambul. lml.

 

* Por Hugo Crema, capricorniano, escritor, não necessariamente nesta ordem, escritor, vivo de passado.

 

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