O poder das palavras ou Sobre minhas dificuldades com os adjetivos
by João Paulo Oliveira on nov 10, 2011 • 9:25 pm Nenhum Comentário
Todo mundo conhece aquela velha máxima “uma imagem vale mais que mil palavras”. Baboseira, coisa de propagandista. Quem sabe das coisas é Manoel de Barros: “imagens são palavras que nos faltaram”. Aliás, se o culto à imagem começou lá na idade da pedra com as pinturas rupestres, a palavra foi alçada ao mais alto – e metafórico – patamar pelos cristãos, “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. João 1:1 é uma passagem belíssima para quem acredita na palavra (com p minúsculo), até mesmo para quem não acredita na Bíblia.
Argumentos positivos para os dois lados, fim de discussão. O papo é outro.
Proponho um exercício: lembre-se de situações em que o significado de UMA palavra contagiou toda uma mensagem. Por exemplo, a “marolinha” do Lula sobre o Brasil estar ou não preparado para a crise econômica de 2008. Para a poeta americana Maya Angelou, palavras são coisas, e estas coisas devem ser tratadas com muito cuidado. Palavras, bem ou mal manipuladas, têm poder.
A Historia de un letrero, do mexicano Alonso Alvarez Barreda não é assim tão nova (tá bom, é OLD mesmo), mas a adaptação da PurpleFeather merece um share. (Seria o estrangeirismo o vício de linguagem mais cool na internet?).
Um breve desvio no post para contar uma historinha. Certa vez, em uma palestra, alguém da plateia questionou o autor lajeano Cristovão Tezza sobre os erros gramaticais tão característicos do internetês, os vcs, os comofas, os miguxos e etc., e como isto poderia prejudicar as novas gerações na compreensão da língua. Por trás dos seus óculos de lentes grossas, o escritor pensou um pouco e respondeu o óbvio que eu ainda não havia descoberto: com internet ou não, a maioria das pessoas sempre escreveram errado, mas nem sempre existiram blogs e redes sociais para que elas pudessem expor seus erros para o mundo todo. Os pobres diários sofriam sozinhos.
Dominar a palavra é como dominar as regras do jogo: você pode não ter muita sorte, mas pelo menos sabe o que está fazendo e entende o que os outros estão fazendo.
Para alguém que trabalha diariamente com palavras, acreditar em seu poder é como o motorista que acredita no freio do caminhão. Ferramenta de trabalho sim, mas, antes de tudo, questão de fé. Assim, o próprio ato de escrever pode se tornar obsessivo: “troque aquele verbo, corte meia dúzia de artigos, garimpe um adjetivo mais moderninho acachapante satisfatório, esconda o gerúndio no porta-luvas, malditos verbos transitivos indiretos!, cadê a gramática?, bem quando eu estava começando a pegar o jeito inventaram essa tal de Reforma!” e daí pra frente.
“Mude suas palavras, mude seu mundo”, claro, como diz Maya Angelou, tome cuidado com os palavrões. E com as palavrinhas também. E com qualquer dica que você encontrar na internet, principalmente aquelas cheias de adjetivos. E para encerrar o assunto, seguindo os princípios aristotélicos, voltemos ao princípio. O vídeo aí embaixo, criado para a Anistia Internacional, é apenas um exemplo que imagens e palavras funcionam melhor juntas. Principalmente para os propagandistas.
Palavras. Elas podem fazer qualquer coisa. Elas podem chamar um cachorro à noite, podem levar conforto a um velho amigo, podem dizer “feliz aniversário” a uma garota cujos balões estão descendo lentamente. Mas algumas vezes, palavras podem te trazer problemas. Como o ativista de direitos humanos no Zimbabue que foi sequestrado por se posicionar contra a corrupção, ou o jornalista na China setenciado a dez anos de prisão por enviar um e-mail, ou milhares de homens e mulheres no Irã que apanham, são presos e torturados, apenas por pedir por eleições livres. Agora nós precisamos das suas palavras para clamar por justiça, para tomar partido, para oferecer esperança às pessoas ao redor do mundo que são silenciadas simplesmente por expressarem suas opiniões. Escreva uma carta ou faça um discurso hoje, suas palavras podem guiá-los até a liberdade. Palavras. Elas podem fazer qualquer coisa.
* Perdoem-me por minha tradução pouco confiável.
** Título inspirado nos textos do @noahmera.

