O tempo nos Comics e Mangás
As duas principais tradições dos quadrinhos no mundo tem uma maneira bem diferente de tratar o tempo em suas narrativas. O mangá japonês sempre trata de histórias fechadas, com final determinado, findada a saga, não importa o sucesso, a história não é continuada por nenhum meio artificial. No máximo retorna-se ao universo daquela narrativa para uma continuação (também de desfecho previsto) ou nova história com personagens diferentes. Já o comic americano apega-se aos personagens, não deseja ou prevê qualquer desfecho para a saga dos heróis.
Vovôs Garotões e folhetins
Assim temos personagens em atividade contínua (ou quase) desde sua criação, como é o caso do Quarteto Fantástico, em ação ininterrupta desde o acidente de foguete que deu poderes para Reed Richards e sua família nos anos 60 ou do anti-herói Justiceiro, veterano da guerra do Vietnã que serve de contraponto sombrio aos personagens coloridos de eras anteriores desde os anos 70. Soma-se a isso outra característica adotada pelas editoras americanas – a do universo compartilhado – todos os heróis publicados por uma determinada editora existiam dentro do mesmo universo possibilitando que as histórias de um interferissem nas histórias de outro ou que houvessem encontros frequentes entre os personagens (como o Homem-Aranha que frequentemente integra Os Vingadores, ou O Quarteto Fantástico ou que os editores aproveitem da popularidade do Wolverine para incluí-lo no máximo de publicações possível.)
Por meio deste recurso acompanhamos o crescimento e mudança dos personagens – Seja o casamento de Reed e Sue Richards, a gravidez e nascimento do filho, aborto da filha do casal, brigas, separação e reaproximação. Ou a trajetória de Peter Parker que inicia sua história como Nerd universitário, abandona a faculdade, torna-se fotografo free-lance, a trágica morte de sua namorada, Gwen Stacy, após o luto acompanhamos sua aproximação, casamento e separação com Mary Jane.
Muitos personagens e só um universo
Também acompanhamos as múltiplas interações destes personagens no ambiente compartilhado, gerando uma experiência tão rica como nenhuma outra mídia gerou até o momento (ainda que o universo literário dos mythos Chutulhunianos criados por Lovecraft e desenvolvidos por inúmeros autores chegue muito próximo a esse efeito – e lembre do encontro de personagens da literatura vitoriana que Alan Moore promove no excelente quadrinho As Aventuras da Liga Extraordinária).
Mas existem alguns problemas…
Ainda que as características citadas gerem uma experiência riquíssima, trazem problemas tão grandes quanto os benefícios. As possibilidades de história são fantásticas, mas lembre-se: o foco são os personagens. Existe uma janela de desenvolvimento que impede os personagens de afastarem-se muito de seu conceito de origem e a medida desta janela é a popularidade/vendas. Na transição de Peter Parker de nerd para fotógrafo a característica básica de loser do personagem se manteve, e a ironia de sua relação com a vida dupla de Homem-Aranha é uma adição genial ao personagem (como fotógrafo, Parker parece conseguir vender apenas fotos de sua ação como HA para um jornal que tem como mote difamar a figura do super-herói). Não obteve tanto sucesso seu casamento – casamento nenhum teve sucesso nos quadrinhos (exceto o do quarteto fantástico, mas Sue e Reed eram noivos desde a criação) tanto que os roteiristas tiveram que inventar um remendo para desfazer o status de casado -e pai- do personagem (e nisto a editora conseguiu desagradar tanto com o casamento quanto com a solução encontrada para desfazê-lo).
Outro problema é a continuidade. Uma história continua sendo escrita a décadas com interações e respeitando outras histórias tende a ficar bem complexa – tanto para se desenvolver quanto para se acompanhar – e os quadrinhos são um produto de massa, é preciso não apenas conservar uma base de leitores, como conquistar novos leitores o tempo inteiro. O último torna-se difícil quando presumimos o conhecimento de 10-15 anos de histórias pregressas para se entender o que está acontecendo no momento atual dos personagens. E ainda existe aquela janela de desenvolvimento (que também é cronológica) como explicar uma história atual do Justiceiro ou no Nick Fury – aquele um veterano do Vietnã e este um veterano da 2ª guerra – com o personagem no auge da forma física?
A solução é a crise?
Quem tentou resolver primeiro este dilema foi a DC Comics – de Batman, Superman e outros tantos – que tinha uma continuidade bem confusa, abarcando terras paralelas e múltiplas versões de seus heróis. Em 1986 a DC lança uma saga chamada Crise nas Infinitas Terras que tratou de fundir todo o multiverso da DC em um cataclismo e reiniciá-lo praticamente do zero. Essa maneira de chamar a atenção para um evento cósmico ao mesmo tempo que reinicia e simplifica a cronologia vai tornar-se um recurso do qual a DC lança mão de tempos em tempos com outras crises. Agora mesmo está em curso uma reformulação do universo DC sucesso de vendas e alvo de muitas críticas pela violência e sexo em excesso nas publicações.
Já a editora Marvel sempre adotou uma postura pontual nas cronologias (como o remendo na cronologia do Homem-Aranha ou a explicação de que Nick Fury foi cobaia de um experimento na 2ª guerra e por isso não envelhece – mas o anacronismo do Justiceiro permanece) e tentou um reboot em alguns heróis nos anos 90 que -felizmente- foi revertido. Recentemente a editora lançou mão do artifício de uma terra paralela – o ultiverso – que traz versões atualizadas dos heróis tradicionais da editora e se mantém independente do universo tradicional, chamado de Terra-616.
Mas esta diferença de tratamento à continuidade pode acabar em breve. Alguns boatos dizem que a Marvel está planejando um reboot semelhante ao da DC em seu universo tradicional. Agora que a Marvel conseguiu emplacar um universo cinematográfico me parece natural que queira alinhar seus principais produtos com o cinema (os vingadores do cinema tem mais elementos em comum com a versão ultimate).
Na verdade o que eu gostaria de ver nos quadrinhos é o fim da continuidade. Se um dos charmes do comic é acompanhar a evolução de um personagem, a dita janela de desenvolvimento que impede que o personagem se afaste de sua “essência” por muito tempo e força remendos mal explicados na continuidade anulam todo este prazer. Alguns dos melhores quadrinhos que eu li, aliás, são aqueles que fogem da continuidade padrão e brincam com o conceito dos personagens em outras épocas e estilos, como Gotham City 1889, que levava o Batman a enfrentar Jack, o estripador ou os clássicos Cavaleiro das Trevas, Reino do Amanhã e Era do Apocalipse
A DC, enquanto parte da Warner e a Marvel, como parte da Disney, passaram de editoras de quadrinhos a produtoras de conteúdo para marcas crossmedia – é neste contexto que, julgo, os heróis são entendidos pelos executivos de suas respectivas Cias cada herói é uma marca e seu uniforme, status e histórico/conceito básico determinam um público alvo específico e as histórias que podem surgir daí. Nesse contexto um apego a cronologia como o que existe hoje não é uma estratégia muito esperta.
E já que os personagens são naturalmente “enquadrados” por que não considerar apenas estas características essências como definitivas e ao final de cada saga o personagem voltar ao status inicial, sem a necessidade de remendos na continuidade? Esta medida também abre espaço para histórias mais drásticas envolvendo o personagem, mas que, quando terminadas, devolvem o personagem são e salvo ao seu posto “arquetípico”. E ainda podem vir quantas crises e fins de mundo os roteiristas quiserem – a hora que quiserem, e não como mero pretexto para arrumar a casa.

