1991 é o ano em que se data o fim da Guerra Fria, com a transformação da União Soviética em Rússia, onde Cuba tem interrompidos seus laços de dependência com esse país, e começa se voltar para o turismo como forma de manter parte da sua estrutura, que era basicamente sustentada com embasamento nos soviéticos. A Guerra Fria se alonga clandestinamente, na verdade, quando os Estados Unidos começam a investir, não apenas na propaganda anti-Cuba, como em ataques das formas mais variadas contra o país.

Tanto as investidas americanas sobre o espaço aéreo cubano fazendo chover panfletos com frases tiranizando Fidel Castro, ataques contra navios, explosões dos maiores hotéis de havana, como as pragas espalhadas nas plantações do país, são categoricamente detalhadas no livro “Os últimos soldados da Guerra Fria” de Fernando Morais, lançado em 15 de agosto de 2011 pela Companhia das Letras.

Também escritor de “Olga”, “Chatô: o rei do Brasil”, “Corações sujos”, “A ilha” e “Cem quilos de ouro”, todos lançados pela Companhia das Letras, escreveu ainda “O mago”, “Montenegro” e “Na toca dos leões”, lançados pela Planeta. Fernando Morais é jornalista, e entre várias outras publicações da imprensa brasileira, trabalhou na revista Veja e no Jornal da Tarde, além de receber três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo, também foi deputado, secretário da cultura e da educação do estado de São Paulo.

Para escrever “Os últimos soldados da Guerra Fria” Fernando Morais cruza mais de vinte vezes a ponte aérea que liga Havana, México e Miami. Ainda antes de chegar na metade das suas buscas, já tinha gastado todo o adiantamento que a Companhia da Letras lhe  havia fornecido para o livro, porém, não poderia abandonar seus planos no momento em que Fidel Castro e o FBI começariam a lhe fornecer documentos secretos e o autorizariam a entrevistar os espiões presos que formaram os dois últimos grupos da guerra, os anticastristas e os vespas.

 

“Os cubanos só liberaram o assunto para mim no começo de 2008. a partir de então fiz cerca de vinte viagens a Havana, Miami e Nova York. O governo cubano liberou todo o material disponível e permitiu que eu entrevistasse quem quisesse, inclusive mercenários estrangeiros que haviam sido presos depois de colocar bombas em hotéis e restaurantes turísticos de Cuba e que tinham sido condenados a morte… os serviços de inteligência cubanos me deram uma copia do megadossiê sobre o terrorismo na florida que Fidel Castro entregou a Bill Clinton com a ajuda do escritor Gabriel Garcia Marques” (Fernando Morais em entrevista à Companhia das Letras).

 

Os anticastristas eram grupos anti-Fidel Castro, em geral cubanos desertores que viviam nos Estados Unidos, aliciados pelo FBI e praticavam os ataques contra Cuba, apesar de viverem nos EUA, tinham acesso mais fácil ao seu país de origem, motivo pelo qual eram buscados pelo FBI para praticar os ataques, normalmente ocorridos em Havana. O principal responsável pelos maiores ataques anticastristas, Cruz Léon, como revelou a Fernando Morais em entrevista na penitenciária de Havana, não sabia exatamente o que estava fazendo, apenas queria colocar as bombas e explodir os hotéis como fazia seu ídolo, Sylvester Stallone.

 

“O problema é que no fim dos filmes geralmente o Sylvester Stallone leva a Sharon Stone pra cama, e eu vou acabar na cadeira elétrica” (Cruz Léon)

 

Os ataques constantes e até então sem nenhum responsável declarado, davam fundamento para a propaganda americana que especulava que fazer turismo na Bósnia-Herzegovina era mais seguro do que fazer turismo em Cuba, e assim enfraquecia a nova forma de sustento de um dos únicos países do mundo sem dependência com os EUA.

Após diálogos mediados por Gabriel Garcia Marquez, em que Bill Clinton não deu ouvidos ao pedido de Fidel para cessar os ataques, como forma de defesa a inteligência cubana criou o grupo vespa. Grupo formado por um total de catorze cubanos, entre eles duas mulheres, todos encarregados de fingir serem desertores e conseguirem se infiltrar no grupo anticastrista, no FBI e na CIA, para poder avisar Cuba dos planos de ataques contra a terra de Fidel, para assim se defender.

 

“Com as mãos suando, sintonizou o seu rádio com a torre da base aeronaval de Boca chita, trinta quilômetros ao norte de Key West, anunciou que era um desertor Cubano e que o avião estava em pane seca, recebeu autorização da marinha para aterrissar numa das três pistas da unidade militar e, quando as rodas do pesado antonov tocaram no solo americano, o tanque do avião estava praticamente vazio… ‘Depois de protagonizar uma história de heroísmo valor e compaixão’, registrou o diário de Miami.”(Chegada do espião cubano René Gonzáles, aos EUA, se passando por desertor)

 

Em cerca de dois anos, os catorze cubanos já eram denunciadores eficazes dos planos de ataques contra Cuba, quando enfim, o país socialista conseguiu impedir centenas de ataques, fazer inúmeros presos e receber um número cada vez maior de turistas.

De 1990 até 1998, ‘’os vespas’’ se mantiveram intocáveis e eficientes, embora muitos deles vivessem em condições miseráveis, muito longe de um glamour de James Bond, alguns até construíram grandes casas e se casaram com belas mulheres, entretanto, algumas famílias dos que retornaram a cuba, não os perdoaram mais, devido a falta de notícias, pelo pouco contato. O que conseguiam enviar eram notícias de denúncias dos planos de ataques anticastristas.

 

Imagem de Amostra do You Tube

 

Neste livro contundente de Fernando Morais, encontra-se desde diálogos dos encontros dos vespas nas redes Burguer King e McDonalds, até detalhes dos rádios que construíam para enviar mensagens a Havana.  Com fotos históricas, como do Fidel jovem na casa de um amigo, ou Che Guevara recém capturado na Bolívia, de hotéis explodidos pelos americanos e dos panfletos derramados no céu cubano.

Os eventos estão relatados sem nenhuma pitada de ficção em “Os últimos soldados da Guerra Fria”, livro que parece ter sido escrito num fôlego só, aquele que Fernando Morais soltou quando conseguiu passar pela alfândega do aeroporto de Miami, com a mochila cheia de documentos secretos do FBI rumo a São Paulo.

 

Título: Os últimos soldados da Guerra Fria
Autor: Fernando Morais
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 416
Preço de catálogo: R$42,00

 

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