Joe Sacco está vindo para o Brasil. Vai participar da FLIP, 9 de julho, na mesa “a história em HQ”. Resenhas dos seus livros agora aparecem em todos os cantos, seus títulos ganham destaque nas prateleiras reais e descontos formidáveis nas virtuais. Não tenho dúvida que esse é um ótimo momento para falar sobre Sacco.
O escritor nasceu em Malta, cresceu na Austrália e vive Estados Unidos. Diferentemente da grande maioria dos escritores por lá, Sacco consegue enxergar além da realidade americana; talvez por causa de um espírito investigativo nato, talvez por causa da bagagem (e dos carimbos no passaporte) que adquiriu cedo na vida. Em seus livros, Sacco mostra ao mundo países que o mundo esqueceu. E mostra de um jeito muita gente detesta enxergar.
Meio jornalista, meio quadrinista, Sacco misturou as duas coisas e criou o “jornalismo em quadrinhos” (JQ). À primeira vista, a ideia parece absurda: a linguagem objetiva do jornalismo é tão diferente da livre imaginação e subjetividade dos quadrinhos que os mais radicais apreciadores de ambos os lados torciam o nariz. Ou é uma coisa ou é outra. Ou não.
Se fossem a júri, a prova definitiva seria qualquer capítulo de qualquer livro do Sacco. Sim, jornalismo em quadrinho dá certo, e pode ficar muito bom. Para quem ainda não leu seus livros, um bom começo é Palestina: Uma Nação Ocupada.
O livro acontece na voz do próprio autor, sobre um confronto que já dura séculos. Logo no início, Sacco revela a opinião clássica da maioria dos cidadãos ocidentais: todo palestino é terrorista. Uma sentença tão estúpida quanto à expressão que todo corinthiano é bandido. Um paralelo obviamente desmedido. Se por um lado a brincadeira brasileira surgiu se uma provocação entre torcidas, o problema entre árabes e hebreus é muito maior, mais antigo e mais apaixonado.
A opinião pública favorável a Israel encontra um espelho no poder econômico e político dos judeus. Sacco destina parte da sua reportagem para criticar o papel dos grandes grupos de comunicação que aproveitaram o crescimento do grupo extremista Hamas para carimbar “terrorista” na testa de todos os palestinos.
Palestina: Uma Nação Ocupada tem muitas faces e um forte embasamento na História. Sacco dá o nomes e as datas, comprime os vários anos do confronto e os eventos fundamentais da construção do Estado de Israel, desde o mórbido lema sionista “uma terra sem povo para um povo sem terra”, até década de 90, em que uma enorme população lutava para superar a negligencia de todas as autoridades mundiais e tentava sobreviver em algumas faixas de terra cada vez mais minguadas.
Terrorismo é o pão no qual os palestinos são espalhados como manteiga (…)
Mas Sacco não esquece as histórias pessoais. Entrevistas com judeus e palestinos são a cereja do bolo, fragmentos das vidas de pessoas esquecidas relatados com uma sensibilidade impressionante. Uma narrativa perspicaz e aguda. Terrível e, ao mesmo tempo, humorada. Uma obra daquelas com o poder de abrir os olhos e te deixar refletindo por um bom tempo, tentando se lembrar dos argumentos do escritor para discutir na mesa do bar, tentando entender os porquês de um conflito implacável.
Palestina foi publicado em 1996, mas corresponde à realidade de alguns meses entre 91 e 92 em que o escritor viveu no território palestino. Joe Sacco ainda é o maior nome JQ. Foi ele quem cunhou o termo e, mais do que isso, abriu mais essa porta promissora para os quadrinhos.
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Palestina: uma nação ocupada
Palestine – 1999 – Joe Sacco
Editora Conrad *
Tradução de Cris Siqueira
Compre = R$ 9,90 (Submarino)
* Fica a bronca com a 1ª edição da Editora Conrad: erros de hifenização se repetem pelo livro todo.


2 comments
Juliana Piesco says:
jul 15, 2011
Parabéns pela postagem!
Acho que um dos aspectos mais interessantes do Joe Sacco, conforme ele mesmo falou na Flip, é que ele é um dos raros autores que não conta a história da guerra focando nos soldados e heróis, mas do ponto de vista dos civis, e o que acontece com eles – segundo ele, a “verdadeira história das guerras”.
Gunnar says:
out 29, 2012
Lixo antissemita.