“Foi chegada a conclusão que a língua portuguesa é a mais bonita do mundo.

 

Acredito que corro pouco risco de errar ao afirmar que José Saramago é um dos escritores estrangeiros mais admirados no Brasil. É claro que a língua portuguesa diminui em muito o Atlântico literal que nos separa de Portugal. Mas foi em sua própria terra que o escritor sempre encontrou seus maiores críticos.

Quando seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi censurado, em 1991, Saramago deixou Portugal para se exilar em Lanzarote, uma pequena ilha vulcânica no arquipélago espanhol das Canárias. Como se sabe, o ateísmo de Saramago nunca foi bem aceito pelos religiosos conservadores portugueses. Quanto mais o escritor se destacava por sua literatura, mais era odiado em seu país pela posição contrária à Igreja.

Em uma das passagens do documentário José e Pilar, a filha do escritor, Violante Saramago, considera escandaloso que o país de origem do escritor “seja quase aquele que o pior trata”, indignada pelo fato da exposição A consistência dos sonhos” (que veio para o Brasil em 2008), ser inaugurada na Espanha.

 

“Quem é que inventou o pecado? A partir do momento em que se inventa o pecado, o inventor passa a dispor de um instrumento de domínio sobre o outro.”

 

No entanto, o documentário de Miguel Gonçalves Mendes explora muito mais que a desilusão do escritor e família com sua terra natal. José e Pilar é um retrato muito incomum na história da literatura (e do cinema) sobre a vida pessoal de um escritor com a importância de Saramago. No centro de tudo está a relação entre o escritor e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar del Rio. No filme, descobrimos como uma workaholic Pilar cuidava da agenda do autor, das entrevistas, das cartas e dos muitos e muitos eventos que o escritor participava, apesar da idade avançada. Também era Pilar a tradutora dos romances de Saramago para o espanhol.

O documentário dá um presente especial aos fãs, permitindo-os acompanhar o processo de criação do livro A viagem do elefante (Companhia das Letras, 2008), o penúltimo do autor. Enquanto Saramago senta-se à frente do notebook para completar a tarefa diária de duas páginas, Pilar traduz o romance, que foi publicado ao mesmo tempo em português e espanhol. A interrupção do escrita do livro, causada por um sério problema de saúde do escritor, é um dos momentos principais do documentário, ainda assim tratado com muita sutileza.

 

“Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente, é isto a velhice.”  

 

Não vemos o escritor no auge do seu padecimento, o internamento de algumas semanas. Mas acompanhamos o sofrimento de Pilar, sua companheira inseparável. José Saramago mostra-se muito lúcido durante todo o documentário, sobretudo em relação à expectativa da morte. Sempre muito questionado se teria medo de morrer (Salvação não fazia parte do vocabulário do escritor), Saramago mostrou seu irredutível ceticismo publicando aos 87 anos Caim, sua última interpretação “herege” e polêmica da Bíblia.

Caim, inclusive, nasceu em uma viagem entre Rio de Janeiro e São Paulo, durante o lançamento de A viagem do elefante. O documentário é marcado por vários fatos curiosos, como o fã brasileiro que pede para Saramago desenhar um hipopótamo em sua dedicatória, ou a jornalista mexicana que sugere que o escritor deixe uma mensagem de Natal para o público. Está presente também a já bem conhecida cena de Saramago emocionado ao final do filme Ensaio sobre a cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meireles (que foi produtor em José e Pilar).

 

“Eu tenho ideias para novelas, a Pilar tem ideias para a vida e eu não sei o que é mais importante.” 

 

O grande trabalho do diretor  Miguel Gonçalves Mendes foi manter durante quatro anos de filmagem um clima muito natural entre o casal e as câmeras, possibilitando um registro muito pessoal do cotidiano dos dois. Ao final, José e Pilar é mais que um documentário biográfico, é um filme sobre o amor.

Assim como o Brasil admirava Saramago, o escritor também gostava um bocado do país. Tinha amigos próximos, como Luíz Schwartz (seu editor por aqui e sócio da Companhia das Letras), Chico Buarque e Sebastião Salgado, e contava sempre com o carinho efusivo dos leitores, carinho que não costumava a encontrar entre os portugueses.

 

“Para mim a morte é o estado de estar ou não estar.”

 

Assista abaixo à primeira parte do documentário (dividido em 9 – você pode encontrar o restante no YouTube):

Imagem de Amostra do You Tube

 

 

*Aspas para as citações de Saramago no filme.

 

Related Posts with Thumbnails