Caminhe para noite íngreme, de Leandro Mayfair
Jogo Perdido
Vi afogamentos pela pia azul marinho. Náufrago, me detive com o amassar dos olhos, a luz dando exatidão às coisas. Me segurei em cerâmicas, desagüei em corrimão e te encontrei no térreo com meus sapatos ainda desamarrados. Apoiava-se num vaso em flor branca, sorriu para esconder as olheiras. Nada nos atingiria, tínhamos motivo para continuar. Se já era segunda, não sei, mas precisávamos urgente jogar na loteria.
Valéria em fuga
Contou nos dedos a espera por Valéria, mas não lhe cabia mais a memória em números. Arrastado por lembranças trocou os dedos por flores, as flores por espinhos e os espinhos por medo. Valéria, antes de se aproximar, parou primeiro e calculou a distância entre o que ela imaginou e o que ela agora via. Não poderia nesse momento ser levada pelo desconhecido. Segurava o vestido encardido pelo desejo de fuga. Já com pétalas nos pés, imaginou que uma nuvem que se arrastava podia ser um sorriso e que um sorriso podia ser uma espuma e que o seu já evaporou. Ele antes de entristecer, avista Valéria atrás de uma jabuticabeira. No primeiro passo ágil, uma jabuticaba estoura na sola da sandália, o seu vestido se esparrama pelo ar. Valéria em fuga obstina que o seu vulto naquele parque não seja percebido. No próximo instante ele não entende, a corrida dele se faz em linha reta. Valéria dispara com braços trôpegos, pernas tortas num caminho íngreme. Corrida sem fôlego, buço lacrimejado, dedos retorcidos por amor, olhos vibrados no sol, cigarra explodindo no ventre dela. Uma nódoa de culpa já lhe mancha o rosto, quer se esconder em alguma sombra, mas antes ele lhe agarra o pescoço. Uma criança de longe analisa os corpos nus acolchoados pela grama.
Moldura
Me assusta a quantidade de molduras no quarto se ainda não te pintei. Está assim como uma inspiração rápida, me escapa a sua beleza entre os dedos. Só, ultrapasso a moldura e ainda não te tenho. Me sujo da tinta quente que é o seu corpo e desfaleço num mármore ensangüentado. A doce fúria da arte – amo e não possuo. Estou em queda pela noite íngreme, todas as molduras no mesmo lugar.
Mancha Negra
O seu corpo deslizava pelo corredor, azulejos brancos, uma cruz refletida até a janela oval. Confuso, sentia o cheiro de fumaça no seu corpo em transe, imagina que chegara até ali pela brisa que varreu as cinzas, mas não. Ela de longe via papéis voando pela janela, cadernos rasgados, cartas, eletrônicos, tubos de canetas e um corpo em chamas. Deitou sob os seus restos e acendeu um cigarro, deixou-se cair na brasa, aconchegou-se na chama, viu de perto a combustão. Uma lágrima longe dele e um vaso de margaridas caem do segundo andar. Ele sentia o papel queimado na boca, quis mastigá-lo, mas evitou o vômito, o papel frágil desintegrava as fibras sendo aos poucos saliva. Nos teus olhos ainda vermelhos de fogo, algo contornava a sombra. Bolaño numa poltrona branca sorria atrás de seu óculo redondo, pernas cruzadas, caderno apoiado no joelho. Um vôo, talvez uma nuvem de fumaça que desenhasse no céu um poema, mas não, queimar-se não te livraria da superfície. Caminhou e já de volta analisava a mancha negra que ficara no chão, um plástico já endurecido pelo vento, folhas enegrecidas pela borda, intervalos de uma história, imaginação que escapa. Mais um cigarro para aliviar o peso. Acima dele, ela faz as malas para partir. A fumaça que cruza o seu olhar não é a mesma que invade a janela.

1 comment
Aline says:
ago 18, 2011
O Leandro Mayfair é um dos autores em quem eu acredito para o futuro da literatura goiana. É possível até sentir o que ele escreve, o sabor do papel queimado o cheiro do cigarro e também a lágrima que escorre dos olhos da personagem no último texto. Muito bom!