Doze de outubro – Por Sérgio Maciel
Acendeu o cigarro esperando que a mulher mandasse apagar. Nunca gostou que fumasse. Dizia de um primo que morreu de câncer. Bravejava ao beijá-lo com gosto da fumaça maldita na boca. Ainda mais no inverno. Mal duplo para o pulmão. Sentado na cadeira de palha, fumava. Dedo amarelo. Tossia seco. As vezes sangue. Maldita fumaça. A mulher bem que avisara.
Saindo da cadeirinha, a marca ficava. Pegou chapéu. Ajeitou terno. Fechou o registro, só assim a torneira parava de pingar. Da porta, viu a poeira, voando pela sala, que uma nesga de sol mostrava. O jornal amontoado à porta. Sol de inverno parece mais bonito. Vai entender. Riscou outro fósforo. Acendeu outro cigarrinho.
Pediu quarto de casal. A mulher adorava. Mesmo sem filhos, dormiam em hotel. Dizia que era melhor. Nunca entendeu. Talvez não violar o santuário do casal. Outro fósforo. Outro cigarrinho. O atendente, baixinho, de cabelo lambido, ia sumindo na fumaça.
- Tem sofá verde?
Era sempre a pergunta dela. Odiava a cor verde. Mas sofá era só dessa cor. Vai entender. Ligou o radinho. Música do poetinha. Ela adorava. No banheiro, fez a barba que não tinha. Nunca teve. Maior sonho era barba grossa e comprida. Diziam que um dia cresceria. Que nada. Só fiapos. Deitou. Riscou fósforo. Mais um cigarrinho. O teto ia sumindo da fumaça. Janela fechada. Luz apagada, dormiu. Cigarro acesso fez buraco no colchão. Nem queimou o dedo amarelo. Não queimava mais.
Tomou banho. Pegou chapéu. Ajeitou terno. O cigarro deu para um mendigo. Não podia fumar. A mulher não gostava. Comprou flores. Tulipas. As preferidas dela. Foi assobiando a música do poetinha.
Para quem fosse procurá-lo na casa, deixou bilhete: “Fui encontrá-la!”. Era seu aniversário. Dia bonito de inverno. Sol brilhoso. Mas o frio fazia tremer queixo. Prometeu para mulher que morreria aos oitenta anos. Fazia hoje. Doze de outubro. Entrou no cemitério. Vontade de um cigarrinho. O mármore brilhava ao sol. A foto da mulher até parecia viva. Colocou as tulipas no copinho. Uma lágrima escorreu. Sentou no túmulo. Com o luto veio a noite.
O chapéu colocou no chão. O paletó cobriu a lápide. A camisa dobrou e fez de travesseiro. Noite mais fria do ano em Curitiba. Beijou a foto dela. Deitou o peito na pedra úmida. Oitenta anos. Agora poderia dormir, para sempre, ao lado da mulher.

1 comment
dalton says:
out 15, 2011
tirando alguns erros de digitação, o texto é bom.