Syrah – Por João Paulo Oliveira
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Frio. A lenha queima na lareira e esquenta a pele, o vinho cai nas entranhas e aquece o sangue, mas nem sangue nem pele resistem ao frio. Sentado em sua poltrona bailarina, o escritor tem à mão a taça que balança no ritmo inaudível da memória, levando o tinto ao sangue, torpor que sobe aos olhos enrijecendo e enrubescendo as finas veias, música que segue as batidas do peito. Ou será dos ponteiros?
Ganha a manhã, insone. Na mesa ao lado morre o romance, uma dúzia de páginas esperando por outras cem ou quinhentas, quem saberá. Inexplicável invalidez que o assalta, pena na mão o escritor dorme. Escrever é impossível! Tenta e por vezes leva ao papel frases sonâmbulas que logo na manhã seguinte parecem indecifráveis. Nem ciência nem religião se interessariam pelo seu problema se acaso ele viesse a se interessar em ciência ou religião.
Bailando com a poltrona, o escritor reconhece a ironia, sabe que para dormir basta colocar a pena na mão. Sofre com o frio e com a memória, que melhor hora para se sentir miserável que durante noites mal dormidas?
Pensa na única mulher que já chamou de sua. Pensa em sua mulher entrelaçada em seu pescoço, sussurrando no seu ouvido, roubando-lhe a taça vazia e levando-o para o calor da cama e dos corpos. Então dormiria e sonharia que amanhã poderia escrever. E que belo romance seria. Seria sobre… sobre o que seria? Lembra de outra miserável noite insone. Os dedos leves da mulher entre seus cabelos ralos queriam levá-lo para o calor da cama e, talvez, dos corpos. Como era compreensiva. Em algum momento, os lábios mornos sugeriram Quem sabe um conto. É mais rápido, você ficaria acordado. Quem sabe. Possuído pela raiva e pelo vinho o escritor respondeu Um conto? Sou Tolstói não Tchekov. Sou Tolstói! e arremessou Guerra e Paz na cabeça da mulher que era sua.
Por muito tempo permaneceu a ressaca. Bebia e perguntava-se, lembrando da doce voz, Um conto? Que disparate. Bebia, tentava escrever e dormia. Tempos depois, soube pelo jornal que a mulher que era sua se casou com um poeta. Casar-se, por causa de um maldito conto? Casar-se? Futilidade de poetas, que vivam de tolos poemas! Logo ela, que era sua.
Como são amargas as lembranças. O vinho esquenta as entranhas e as lágrimas escorrem pela pele. A amargura da insônia, o amargo do syrah. Agita-se com as respostas que não tem. Por que ainda me considero escritor? Enquanto sonha o homem respira.
Enche a taça, Que fale o vinho, afinal, quem ouvirá um escritor que dorme ao escrever?
Noutra manhã, encontrou duas páginas novas escritas de uma só vez, que lhe valeram um breve sorriso e lhe custaram três meses sem qualquer avanço. Guerra e paz. Desconfiou do pinot noir chileno que vinha bebendo. Abandonou-o. Arriscou cabernet sauvignon, sem resultado, entregou-se ao syrah. Falavam a mesma língua, por vezes o escritor conseguia conversar com os antepassados do vinho, que juravam ser franceses. De francês, o escritor arriscava mercis e jê t’aimes, mas syrah entendia muito bem. Prometia ao vinho escrever um romance nessa língua, se conseguisse ficar acordado. O vinho respondia Quem sabe um conto. É mais rápido, você ficaria acordado. Quem sabe.
Embriagado, olhou a lareira que ardia em brasas na falta de lenha. Levantou vagarosamente da poltrona bailaria, ele mesmo bailando, a taça agitada na mão direita, a garrafa assustada na esquerda. Um conto? Um conto? Que disparate! e jogou os companheiros na lareira.
Secou as lágrimas, Não deve ser difícil falar em merlot.
