Todo bom romance tem um centro, “uma profunda opinião ou insight sobre a vida”, como define Orhan Pamuk. O escritor turco não é o único a defender esse significado misterioso entranhado na narrativa, é claro. Borges tratava a mesma definição simplesmente por “assunto”.

O conhecimento e a manipulação desse “assunto” ou “centro” é o ápice da teoria de Pamuk sobre as diferenças entre o romancista ingênuo e o sentimental. Para realizar as conferências que deram origem ao livro O romancista ingênuo e o sentimental, ministradas no prestigiado ciclo de palestras Charles Eliot Norton na Universidade de Harvard, Pamuk toma como ponto de partida o ensaio Über naive und sentimentalische Dichtung¹, do escritor alemão Friedrich Schiller.

Para Schiller, o poeta ingênuo é aquele pouco preocupado com os aspectos artificiais da escrita, que se sente inspirado pela natureza; enquanto o poeta sentimental, ou reflexivo, é fascinado pelas técnicas narrativas, totalmente consciente e crítico dos próprios métodos.² Pamuk amplia a distinção de Schiller, aplicando-a não só aos romancistas, mas também aos leitores.

 

“Quanto mais o romancista consegue ser, ao mesmo tempo, ingênuo e sentimental, melhor ele escreve.”

 

A troca de foco do poeta para o romancista expressa um fenômeno que começou a mais de 150 anos: o desenvolvimento do romance como o gênero literário mais popular a nível global, sobrepujando poesia, teatro, epopéia e aventuras cavalheirescas. Pamuk identifica Flaubert, Stendhal, Balzac e Dickens como os “patronos” da consolidação do romance no século XIX.

Gabaritado com um Nobel de Literatura (2006), o autor procura na própria carreira uma série de exemplos para enriquecer “aula”, passando por obras como O livro negro, Istambul, O museu da inocência e Neve. Qualidade literária à parte, o que cativa realmente a atenção nos seis ensaios de Pamuk são os trechos que o turco aborda sua formação como leitor, quando analisa os clássicos da literatura inglesa, francesa e russa.

 

“Escrever um romance equivale a pintar com palavras, e ler um romance equivale a visualizar imagens por meio das palavras de outra pessoa.”

 

Em outra dicotomia, Pamuk opõe a “literatura visual” à “literatura verbal”. Considerando-se escritor visual, enaltece Tolstoi como o principal autor da vertente; enquanto garante a Dostoievski a posição de maior escritor verbal. Uma citação comum em todo o livro é a cena em que Anna Kariênina³ tenta se concentrar na leitura de um romance inglês em um vagão barulhento de trem. A paisagem, o cenário, as cores, o enquadramento; para Pamuk o ato de criar um romance é semelhante ao de pintar um quadro, algumas vezes o artista precisa se distanciar da obra para enxergá-la por completo.

Ao mesmo tempo em que o romance pode ser uma pintura, evocando imagens na mente de um leitor; deve existir como um museu, formando um arquivo de sentimentos, gestos, sons, expressões, cheiros, imagens, sabores e objetos, dos mais banais aos mais simbólicos, registrando as relações humanas em um determinado tempo.

A formação e imagens na mente do leitor e o registro dos hábitos sociais são, para Pamuk, características determinantes para o prazer real de ler um romance. Assim como levar o leitor a visualizar cada cena pelos olhos dos protagonistas, a entrar nas paisagens, a buscar a cada virada de página o centro exclusivo do romance. Os ensaios de Pamuk são curtinhos e didáticos, cheio de boas referências, e ainda assim reveladores sobre a obra do próprio escritor.

 

Título: O romancista ingênuo e o sentimental
Título original: The naive and the sentimental (2010)
Autor: Orhan Pamuk
Tradução: Hildegard Feist
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 152
Preço de catálogo: R$ 34,00

 

 

¹Sobre poesia ingênua e sentimental; 1796-1796. Publicado no Brasil pela Imprensa Nacional.

²Para Schiller, Goethe era um exemplo de poeta ingênuo, enquanto ele próprio era um poeta sentimental.

³Personagem do livro Anna Kariênina, de Tolstoi; considerado por Pamuk o maior romance de todos os tempos.

 

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