Ah! o império romano.
A ambição de seus imperadores, o brilhantismo de seus filósofos, a fartura de suas mulheres e a glória de suas cidades. Sempre que eu imagino o império romano, tento me colocar no lugar de um cidadão médio, como um vendedor de azeitonas, por exemplo.
Os livros de História não nos contam sobre os vendedores de azeitonas. Eu imagino que eles adoravam umas partidinhas de bigas e, vez por outra, gritavam Ave César. É claro que vendedores de azeitonas não é um tema particularmente interessante para a História. Esse é o ponto: o que fica para a história são fatos, datas e nomes. A arte tem outra competência: resgatar do anonimato características das pessoas de verdade, mesmo que as pessoas de verdade sejam ficcionais.
Essa é a beleza da literatura, transforma em história o que a História renega.
Satiricon foi escrito entre 62 d.C e 66 d.C, época em que Nero era soberano. Nero era um maluco, que matou a mãe, ateou fogo na cidade e provocou o suicídio de várias personalidades, entre elas Sêneca e Petrônio, o escritor de Satiricon.
Segundo especialistas, a obra é uma reconstrução fiel da vida na Roma antiga. A julgar pelos personagens e suas aventuras, Roma era uma putaria. Membros da high-society competiam suas traquinagens em banquetes homéricos. Hospedagens eram bordéis. Roubar e alcovitar era um hobbie bastante popular. Termos como racismo, machismo e pecado estavam longe de ter os significados que a gente tem hoje. Isso, na sociedade de vanguarda da época, uma sociedade que influenciou substancialmente nossos conceitos de justiça.
Percebeu? Em dois parágrafos resumi todo um período dos mais fascinantes da História com algumas descrições pouco lisonjeiras a partir de uma percepção muito tênue do que eu considero normal ou anormal. Não tenho dúvida de que hoje acontecem as mesmas coisas, apenas com roupas diferentes.
O perverso, o feio, o bonito e o brilhante: tudo é uma questão de contexto. É o contexto que desperta certo tipo muito peculiar de juízo: uma vontade de achar errado o que não faz parte dos nossos códigos morais.
Seleciono um exemplo para demonstrar o contraste. Pelo que podemos entender do livro, a maior diferença do sexo entre um homem e uma mulher para o entre dois homens era que apenas o primeiro poderia gerar nenezinhos. O personagem principal, Encólpio, devotava seu amor (sentimental e sexual) ao seu servo, Gitão. Porém, não se rotulava a relação como homossexualismo. Era apenas uma relação. A gente sabe que hoje as coisas não são bem assim. O bullying está aí para comprovar.
E aqui eu abro um parêntese. Satiricon é uma sátira. Petrônio adotou um tom zombeteiro em toda a obra. Mas toda sátira tem seu arreio na realidade. Por isso, faço a comparação entre aquela época e a nossa baseado no livro. Continuando…
Hoje, define-se Petrônio como um escritor de estilo barroco. Há uns bons séculos, o historiador Tácito o descrevia assim:
“Ele consagrava o dia ao sono, a noite aos deveres e aos prazeres. Se outros chegam à fama pelo trabalho, ele adquiriu-a pela sua vida descuidada”.
Um escritor farrista não chega a ser novidade. Nem a libertinagem, nem a maluquice, nem o matricídio. O modo como tudo isso se arranja e como o escritor transforma a realidade em livro é que causa estranhamento.
Satiricon é bem humorado e sem firulas, mesmo assim, demanda um bom grau de dedicação. Se não há no mínimo uma curiosidade história, o leitor desiste da obra simplesmente porque ela desafia os nossos juízos, a nossa realidade. Algumas vezes, isso se confunde com um “livro difícil”. Eu prefiro definir como um “livro carente”. Ele vai te provocar, mas se você dedicar um pouco, a viagem vai ser interessante.
