O nome do livro é E se Obama fosse africano e outras interinvenções – Ensaios. Mas não é um livro de ensaios que eu tenho em mãos. De todas as interinvenções do livro apenas a última, aquela que dá nome à publicação foi de fato concebida como um escrito, um artigo para o jornal Savana, de Maputo – Angola, de resto o livro traz um apanhado de falas do autor em conferências na Suécia, Portugal, Brasil, Angola e em Moçambique, terra natal do escritor.

Couto é considerado um dos escritores mais inventivos da língua portuguesa (sempre ao lado de Guimarães Rosa e Manoel de Barros) graças ao uso poético da linguagem e a originalidade na utilização de neologismos (como o interinvenções do titulo do livro) ainda que esta reinvenção da língua traga em sua gênese o imaginário ancestral e a tradição oral de moçambique. Se uma das funções do escritor é traduzir o espírito ou a sensibilidade de uma época ou sociedade, podemos dizer que Mia Couto cumpre a função não apenas para com sua terra natal, mas também para com todos os falantes da língua portuguesa e este livro é uma grande oportunidade de entrar em contato com este universo e suas correlações com o Brasil.

Já no primeiro ensaio – Línguas que não sabemos que sabíamos – temos uma pista das influências que levaram o autor até este universo quando narra com leveza a confusão de mal entendidos e de conceitos que se tornou uma expedição cientifica que acompanhou (Couto é biologo) na ilha de Inhaca, onde os nativos falavam uma das mais de 25 línguas que compõe o ecossistema línguistico de Moçambique. Julgo que a originalidade linguística de Mia Couto e o próprio lugar curioso que o autor ocupa – o de escritor filiado a um resgate de oralidade, com uma lírica própria convivendo pacificamente com o cientista – só poderia ter origem em um ambiente destes, onde a língua e a cultura aceleradamente trocam genes e inventam simbioses como resposta aos desafios do tempo e do ambiente (o grifo novamente vem da fala do autor).

É deste primeiro ensaio, da conferência Rios, cobras e camisas de dormir e de O incendiador de caminhos é que saem as mais tocantes lições de literatura e da importância da criação literária no cotidiano, como elemento de criação de significado para a vida, uma dimensão da arte que temos de resgatar nos modos de pensar das sociedades orais.

A seguir o autor fala de pobreza e dos motivos ideológicos impedem os países africanos de inscreverem-se integralmente na modernidade como sujeitos de suas próprias histórias. O leitor brasileiro vai concordar e relacionar muitos dos apontamentos do autor com a nossa própria cultura, mas também pode sentir-se orgulhoso quando o autor cita um trecho de “Volta por Cima” do também biólogo Paulo Vanzolini ao incitar a esperança, logo depois de uma dramática contextualização dos problemas sociais e políticos do continente – (…) não podemos senão ser optimistas e fazer aquilo que os brasileiros chamam de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. O pessimismo é um luxo para os ricos.

Ainda há ensaios dedicados aos autores brasileiros Jorge Amado e Guimarães Rosa onde ficamos sabendo da influência que nossos escritores tiveram nas letras africanas e no modo de pensar um português, de encontrar um caminho para uma lusofonia própria, com identidade própria.

Com sabor de uma boa conversa, passeando dos problemas sociais, ciência, Língua e literatura sempre com a mesma leveza e sabedoria, Mia Couto expõe seus pontos de vista e chama a reflexão em um livro que deve ser lido. Grande lançamento da Cia das Letras.

 

Título: E se Obama fosse africano? – E outras interinvenções
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço de catálogo: R$ 35,00

 

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