As panteras das plumas & as tranças das estrelas
numa fuselagem sem saída
R. Piva.
e durante toda a tarde o silêncio. dentro da casa. latejando o que o receio de um e a raiva do outro recusavam vozear. roendo. o assoalho vibra sob os passos que entram na cozinha remoendo. vibra, não os anuncia, o outro é pego num desprevenido ansioso de antes, sentado à mesa de costas pra porta, previa. reluta entre oferecer o café recente, em levantar indo embora e em começar a conversa pra ganhar vantagem. as mãos juntas, nó sólido na ponta dos braços, não se alteram. instável a linha de visão que tenta encontrar a do outro. o rosto a custo volta à janela onde a rua troveja. desistiu de investigar se os salamaleques do outro – entra devagarzinho, tira um copo, põe sob o filtro, saboreia a água, sempre sem olhar – são de propósito. que são sadismo já há consenso. ele quer nem saber se é com gosto que ele espera e dá voltas ao assunto e olha o jardim onde silêncio e gritaiada digladiam. a indiferença gorgoleja pro outro ouvir. acuado no fundo do assento. levanta assim que o outro ameaça virar e resolver. assoalho abafa a batida em retirada, testemunha da pressa elíptica que nem olhar pra trás olha. não consegue evitar que se ouça alto e zombeteiro o nome vindo da cozinha. mas também não ecoa. a porta aberta escancara. baque no andar de cima esgarça o fim da pronúncia.
Por Hugo Crema.
