Sentei noite dessas pra escrever isso aqui. Do jeito que eu gosto, com sono. Fico encafifado a semana inteira com o imperativo periódico desta coluna mas preciso de um rompante pra romper. Já tinha avisado que queria escrever algo sobre irredutibilidade tradutória. Mas, puta que pariu, saiu um pedaço de ficção. A princípio um pudor racionalizante vetou a possibilidade de ficção neste espaço, que por mais que dê tema livre me investe de ínfima responsabilidade. Vai que o editor não gosta, vai que Zeus acha feio. Ainda bem que esse mesmíssimo Zeus me salvou com um afterthought que trouxe à tona um monte de questiúnculas que eu sempre repiso. Vou explicar com a historinha do cliente que eu atendi na livraria: me disse que possuía pra mais de dois mil livros, respondi que as minhas pilhas de livro cresciam alarmantes ameaçando soterrar, perguntado sobre o que eu lia, respondi literatura e recebi de volta um risinho entre complacente e desprezando. Noves fora, o que distingue o que nomeamos ficção do que nomeamos factual? Essas duas categorias não dão conta de uma parada que pra mim é a única que funciona, existe representação. Tudo é filtrado e tudo é veículo de discurso. Tenho uma teoria sobre por que o ser humano escreve, pra resumir digo que fabulação é a única garantia de conexão com o mundo. De resto, não passaríamos de pedras. Até porque, que diferença faz se o Daniel Galera atropelou ou não os cachorros naquele conto que o deixou famoso? Até porque que sentido faz a Oprah excluir um livro do clube de leitura só porque o autor revelou não se tratar de uma biografia strictu sensu? Até porque não faz sentido também uma secretaria de educação recolher livros de estudos sociais por causa de inconsistências. E falar dessas celeumas triconhecidas é só a ponta de um iceberg. Dava pra passar horas desfiando procedimentos de autoapagamento e autoficção em diversos autores mas tanto nem eu tenho saco pra isso mais quando Roland Barthes e Schopenhauer são mais recomendáveis. O que fica é uma lição que pode ser uma chave pra se sofrer menos na vida e na hora de descrever em vinte e três páginas as manobras táticas da infantaria neerlandesa na batalha dos guararapes, não existe algo que se pode chamar de acurácia histórica. Se formos nos apegar ao detalhe do detalhe padeceremos de mise en abyme. Existe precisão mas ela e tudo é invencionice, provável imposição. E eu acho mesmo que um dos problemas da literatura brasileira é a falta de precisão, pertinência e comprometimento, dá vontade de suicídio cada livro que sai ambientado num bar com um narrador boêmio pretensamente intelectualizado. Não vou entrar em discussão agora, deixar pra dar pano pra manga daqui a umas semanas.

 

Então é isso, semana que vem posto a ficção aqui.

 

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