Eu escrevo no ato puro de pensar, de Ryan César Roncaglio

 

Eu escrevo no ato puro de pensar

No fim do dia, no choro da noite

Sobre o amor, a dor, o açoite

Eu escrevo, no puro ato de chorar

 

Eu digo do que sinto, ou deixo

Rio do brilho são da loucura

Beijo o pudor desta carne impura

Nem sempre com nexo ou eixo

 

Eu deixo que o riso cante livre

Pego-me deitado ao sol poente

Se é fantasia, ou real que sente

Que seja um falso poeta e grite!

 

Se paro, se morro, junto do leito

Se mordo, se machuco, um suspiro

Se arranco, arranho, roubo um gemido

Faço tudo o que faço e o que é feito

 

Não sei amar senão como criança

Perdidos na memória, os alívios

De sentar-se e ouvir os colírios

Não sei amar, senão amar esperança

 

Sou um filho da Lua, divina

Uma faixa de esperança brilhante

Estampada na noite sombria, penetrante

Fogo de minha poesia, alvina

 

Sou hoje, nunca e sempre no tempo

Quero o fogo das nuvens e do vento

Quero algo e nenhum sentimento

Quero riso, azedo e lamento

 

Se o sonho de mim não mais emana

Ainda viverei a cantar sua ausência

Se não na riqueza, vou na carência

De manter meu ser essa viva chama

 

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