Vida e morte de um outro rei do brega, de Noah Mera

 

Fonte: Já sei namorar

 

Começaram a tocar a casa não estava ainda completamente cheia. Do lado de fora os Chevettes, Monzas, Kadetts e Del Reys ainda chegavam trazendo a platéia para o show.  De certa forma era um mundo parado no tempo, ou um mundo onde o tempo parecia todo misturado, embaçado… Elementos dos anos 70, 80 espalhados por toda a edificação que deve datar de alguma dessas décadas. O Lugar mudou de nome e de donos várias vezes, mas de resto permanece o mesmo desde o cantor começou a apresentar-se ali, no inicio da carreira.

Espalhados pelo amplo salão estavam aquelas tiazonas gordetas, a maioria com pinta de evangélica, todas animadíssimas cantando as músicas e dançando com outros tantos tiozões vestidos como o cantor, penteados parecidos, correntes e pulseiras que só diferiam em valor daquelas ostentadas pelo homem atrás do microfone cantando mole em cima do pequeno palco – as vezes ele tinha a fantasia de que poderia descer para brincar com a platéia e qualquer um poderia subir de volta e terminar o show, indistinguível dele mesmo. Não que ele dite a moda para seu público – aliás, moda, para este público, não existe. Ele apenas é igual a qualquer um deles. Sempre soube disto verdadeiramente, nunca com a falsa modéstia de outros artistas.

Deixou a divagação de lado e tornou a prestar atenção no público. Mais ao fundo, estavam os jovens com seus bonés, calças jeans lavadas e largas e camisetas grosseiramente falsificadas – único testemunho da passagem do tempo na paisagem do show. Os rapazes estavam parados, em sua maioria encostados no balcão do bar, olhares agressivos, a tentativa de uma postura confiante, uma absoluta falta de jeito em chegar nas meninas (de fato vão chegar em casa, em sua maioria, sozinhos e feridos)… completamente deslocados do tempo e do clima do show.

Ele cantou como sempre fez, profissional, sem esforço – o que não significa sem gosto – sabia como agradar, e este era seu grande orgulho.

E então, no meio do show ele viu a menina. Devia ter acabado de chegar à maioridade, mas aquela pele morena, o rosto de lábios desenhados à perfeição, o olhar apertado e realçado pela maquiagem e olhando exatamente para os olhos dele. O sorriso discreto de quando ela notou que ele a notava e que dava um charme safado selando a perfeição daquele conjunto.

Oh, ele escreveu inúmeras canções e teve muitas garotas como esta. Não tantas quanto sua fama anunciava e cada vez menos conforme os anos foram passando mas uma visita especial de alguma fã especial ele ainda recebia por vezes. E esta noite ele sabia que receberia a visita dela. Em uma pausa breve, enquanto combinava a próxima música, também fez um sinal indicando a fã para o tecladista, que depois localizaria a moça e a convidaria para o camarim privado do cantor.

E assim foi. Ele a recebeu, ofereceu o espumante (a casa sempre comprava um muito barato, mas não fazia diferença), um papinho e logo ela estava ajoelhada com a cabeça metida em seu colo. Ele relaxou o corpo, se deixando levar por aquela boca e língua que sabiam exatamente o que fazer. Depois de algum tempo em transe, foi puxar de leve o cabelo da moça, mas sentiu novamente o formigar do braço inteiro que havia sentido do nada durante a passagem de som da tarde do mesmo dia.

Foi quando também percebeu que a porta estava sendo golpeada e abriu quase sem resistência revelando um dos tiozões do show, arma em punho, rosto vermelho e careta de ódio. Mal teve tempo de afastar a jovem e levou dois, talvez três tiros certeiros no peito. Caiu no meio do camarim, ainda suado do show, calças na altura do joelho, o peito aberto como uma flor horrenda – um obsceno repolho vermelho de carne e sangue. Não pensou na identidade do assassino ou seus motivos. Uma única imagem estava fixada na eternidade daqueles poucos segundos. Sua última visão,  aqueles seios pequenos e bem desenhados, os mamilos como dois graciosos botões completamente cobertos da sua porra e sangue.

Acordou no quarto de hospital sem ar e com uma dor aguda. Morreu pouco tempo depois. Os médicos tentaram reanimá-lo, sem sucesso.

Não se registram mais últimas palavras, mesmo no caso de uma pequena celebridade como ele. Nas mesas de bar a lenda é que suas últimas palavras foram uma cantada para a anja que veio buscá-lo. Provavelmente foi alguma conversa sobre a gravidade do seu estado com o médico ou uma conversa absolutamente casual. Mas seus últimos pensamentos, quando se viu acordado na cama daquele hospital higiênico, silencioso e estéril intuindo o que aconteceria em seguida. Bom, estes pensamentos foram:

“-Morrer do coração… sim… mas esta? Que bela morte de merda”.

 

Related Posts with Thumbnails